sexta-feira, 23 de maio de 2008

Kafka

O meu escritorpreferido! O texto que reproduzo aqui é retirado do livro A Metamorfose, seguido de O Veredicto, duas obras dele publicadas pela L&PM Pocket, uma versão muito boa, diga-se de passagem, com comentários deveras enriquecedores... Nada de ortodoxamente marxista revolucionário, mas, como dizia Trotsky, nem só de política vive o homem... hehehehehehe.. Então, estou transcrevendo o ótimo prefácio da edição já citada, escrita por Marcelo Backes. Desde já, agradeço à Bruno, meu colega de trabalho que me emprestou essa versão. Boa leitura.

"Franz Kafka (1883-1924) é um dos maiores escritores de todos os tempos. Não há lista de romance universal em que não figure O processo, assim como não há lista de novela em que não apareça A metamorfose. Sua obre é tão importante que Heinz Politzer, um dos mais conhecidos comentaristas de Kafka, chegou a escrever: ' Depois da metamorfose de Gregor Samsa, o mundo onde nos movimentamos tornou-se outro'.
Em 10 de setembro de 1912, às dez horas da noite, Kafka começou a escrever O verdicto.Quando terminou, por volta das seis horas da manhã do dia seguinte, totalmente esgotado, sem conseguir tirar as pernas de sob a escrivaninha, apontou em seu diário que havia descoberto 'como tudo poderia ser dito'; que inclusive para as idéias mais estranhas havia um grande fogo pronto, no qual elas se consumiam para depois ressuscitarem.
Dois meses depois viria A metamorfose, a mais conhecida, a mais citada, a mais estudada de suas obras. Em 7 de dezembro Kafka escrevia à ua noite, Felice Bauer: 'Minha pequena história está terminada'. A obra era concluída 20 dias depois de ter sido iniciada.
A metamorfose e O veredicto (cada uma com duas edições) viriam a ser duas das três únicas obras de Kafka reeditadas ainda em vida do autor. O foguista , que depois passaria a integrar o romance América teria três edições. Embora tenha descoberto seu caminho de escritor já em 1912, Kafka jamais chegou a alcançar fama enquanto vivo. Ainda que tivesse escritores do calibre de Robert Musil entre os apreciadores e incentivadores de sua obra e mesmo tendo recebido, em 1915, o prêmio Fontane de Literatura Alemã - um dos mais importante da época -, Kafka morreu sem saber que seria eterno.
Kafka chegou a participar da comunidade judaica, até de manifestações socialistas, mas foi sempre um solitário. Apesar de quatro noivados, apesar de um punhado de amigos - um deles tão fiel que foi incapaz de cumprir seu derradeiro pedido: Max Brod a quem o mundo deva a publicação d'O processo e d'O castelo, entre outras obras - Kafka foi avesso à convivência. Embora tenha morado boa parte da vida com sua família, o autor sempre viveu sozinho. Kafka não era nada e era tudo ao mesmo tempo. Era judeu, escrevia em alemã, nascera na Boêmia e devia submissão ao Império Austro-Húngaro. Nessa terra de ninguém, fechado dentro de si mesmo, Kafka se tornou um dos mais importantes escritores do século XX.
A obre de Kafka já foi analisada por todas as suas facetas, e o volume de sua fortuna crítica encheria bibliotecas inteiras. O desepero do homem moderno em relação à existência, a eterna busca de algo que não está mais à disposição, a pergunta por aquilo que não tem resposta são as características mais marcantes de sua obra. Seus personagens são vítimas de um enigma insolucionável - a própria vida. Com sua obra, Kafka escreve o evangelho da perda, assinala o fim da picada. Ele é o escritor lusco-fusco, o poeta da penumbra, a literatura em seu próprio crepúsculo.
O realismo de Kafka e mágico, mas sóbrio ao mesmo tempo; seu humor às vezes é grotesco, outras vezes irônico, mas no fundo sempre carregado de seriedade. Sua prosa é dura, seca e despojada. Kafka reduz a riqueza da língua alemã a trezentas palavras, e mesmo assim é um dos maiores estilistas da prosa alemã. O que Kafka escre é ele mesmo, o ser em si. Sua literatura é seu 'eu' feito letra: seu estilo é marcante, embora uma de suas maiores características seja a impressoalidade. É como se o autor não necessitasse da muleta do estilo - em seu aspecto subjetivo - para fazer brotar seu eu, sua individualidade. Kafka não trata de ânimos ou ambientes, nem de experiências ou psicologias. Ele fala do fundamento da existência em si, do qual a parábola é o melhor modelo. Num dos fragmentos de seus Diários está escrito:'Escrever como forma de oração.' e Kafka fez de sua arte sua reza.
George Lukács, em sua crítica reduzidamente marxista, viu em Kafka apenas a decadência tardia do mundo burguês. Theodor Adorno, marxista tardio, teórico da Escola de Frankfurt, disse: 'Os protocolos herméticos de Kafka contém a gênese social da esquizôfrenia' e assinalou em Kafka a essência do mundo moderno. Sigmund Freud se perguntava: 'Será Kafka um Homo religiosus ou alguém que com seus 'veredictos' toma nas mãos a vingança contra Deus e contra seu mundo desfigurado pelos homens?' O pai da psicanálise referia-se à sua obra O veredicto, e logo depois dela viria A metamorfose, apresentando, a mesma situação, aparentada em índole e conteúdo; fruto da mesma época, produto da mesma safra.
Kafka planejava reunir O veredicto, A metamorfose e O foguista numa obra chamada Filhos (Söhne). Mais tarde pensou em pôr O veredicto, A metamorfose e Na colônia penal, num mesmo livro, intitulado Punições (Strafen). Nunca veio a realizar seus intuitos, mas tanto "punições" quanto "filhos" são palavras sintéticas - exatamente conforme Kafka as apreciava nos títulos - para definir um pouco do muito que as duas obras deste volume têm em comum.
'O poeta tem a tarefa de levar aquilo que é mortal e isolado à vida infinita, o acaso ao legítimo. Ele tem uma tarefa profética'. Mas essa tarefa profètica, Kafka não via como um presente dos céus, mas como uma ordem do inferno. ' Tudo o que não é literatura me aborrece, e eu odeio até mesmo as conversações sobre literatura.' À leitura, pois
."

domingo, 4 de maio de 2008

Mais uma dos Engenheiros

Cidade em Chamas
Engenheiros do Hawaii
Composição: Gessinger



As chances estão contra nós
Mas nós estamos por aí
A fim de sobreviver
Como um avião sobrevoa
A cidade em chamas
A cidade em chamas
No meio da confusão
Andando sem direção
A fim de sobreviver
Só pra ver como brilha
A cidade em chamas
A cidade em chamas

Se o que eu digo
Não faz sentido
Não faz sentido, ficar ouvindo
Mas o que eu digo
Não é mentira
Não faz sentido
Ficar mentindo
Enquanto as bombas caem do avião
Deixando de recordação
A cidade em chamas
A cidade em chamas

Já ouvimos esta estória
Sabemos como acaba
Acontece quase tudo
Não muda quase nada
Já vimos este filme
Sabemos como acaba
Explodem quase tudo
Não sobra quase nada
Então, só resta uma solução
Sair no meio da sessão
Pra ver
A cidade em chamas
A cidade em chamas

As chances estão contra nós
Mas nós estamos por aí
A fim de sobreviver
No meio da confusão
Andando sem direção
A fim de sobreviver
Enquanto as bombas caem do avião
Deixando de recordação
A cidade em chamas
A cidade em chamas

Não basta ter coragem
É preciso estar sozinho
É preciso trair tudo
E trazer a solidão
Eu sei que eles tem razão
Mas a razão é só o que eles tem

?quantas bocas se fecharão
Quando a bomba beijar o chão
Da cidade em chamas?
A cidade em chamas...

As chances estão contra nós
Mas nós estamos por aí
A fim de sobreviver
Como um avião sobrevoa
A cidade em chamas

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Bush In Babylon

O trecho abaixo é do livro Imperialismo e Resistência, de Tariq Ali, da editora Expressão Popular. Boa leitura!

... Os poetas iraquiano exilados por Saddam Hussein se opõe totalmente à ocupação. Quando encontrei o grande poeta árabe Saadi Youssef, no dia seguinte à queda de Bagdá, ele chorava. Ele me disse : Havia três grandes poetas no Iraque: eu, (Mohammed Mahid) al-Jawahri e Mudhaffar al-Nawab. Al-Jawahri morreu aos cem anos. Saddam costumava nos enviar mensagens, dizendo: "Sei que vocês são radicais, sei que me odeiam, mas vocês são radicais, sei que me deiam, mas vocês são parte da herança do Iraque; vrnha recitar seus versos em uma leitura de poesias em Bagdá e terão uma platéia de um milhão de pessoas." Ele estava certo - haveria um milhão de pessoas para ouvir os três grandes poetas. "Nunca fomos." Disse Saadi Youssef. "Muitos de nossos companheiros foram mortos quando a CIA deu a Saddam a lista de comunistas a serem eliminados. Saddam fez isso para eles. Isso nos feriu. Mudhaffar al-Nawab, companheiro exilado, disse que Saddam poderia nos matar, o filho da mãe. Não confiamos nele. Dissemos ao embaixador. Não queremos ir, e sua resposta foi 'Saddam disse que o sangue de suas veias garante a segurança de vocês.' Por algum motivo, não foi muito convicente.
Um mês antes da invasão ao Iraque, todos os exilados que agora estão no poder, apoiado pela CIA e pela inteligência britânica, foram a um encontro secreto num hotel em Londres. Saadi Youssef presenciou isso em seu exílio em Londres e disse: "um casamento de chacais".
"No sul do Iraque", continuou Youssef, "nos meses de verão, quando dormimos sob a estrela para nos refrescarmos, uma vez a cada seis meses, ou a cada três meses, uma vila irá anunciar que houve uma reunião secreta de chacais. Eles vêm, fazem barulho, acasalam deixando um cheiro insuportável. No dia seguinte, o povo acorda e diz: Você percebeu? Sentiu o cheiro do casamento de chacal? Depois se esquece disso, pois eles demoram a aparecer novamente." Quando esses colaboradores, então clamados de Congresso Nacional Iraquiano, se reuniram em Londres, ele escreveu um poema maravilhoso intitulado "O casamento dos chacais", pelo qual foi proibido de retornar ao Iraque. O poema circulou pelo mundo via internet e as pessoas por toda a parte se referiam aos colaboradores com o 'casamento dos chacais'.

Oh! Mudhaffar al-Nawab
companheiro de longa data,
que faremos quanto ao casamento dos chacais?
Você se lembra de antigamente:
no frescor da noite que cai
sob telhados de bambu
embalados por almofadas macias de fina lã
tomávamos chá (um chá que eu nunca experimentara)

Entre amigos...
A noite cai tão suave como nossas palavras
debaixo das coroas das palmeiras carregadas
enquanto a fumaça sai do coração, em curvas, um perfume
como se o Universo estivesse acabado de nascer

... E então explode o o barulho
da grama comprida e das palmeiras -
o casamento dos chacais!

... Oh! Mudhaffar al-Nawab -
hoje já não é ontem
(a verdade é tão difusa quanto o sonho de uma criança) -
a verdade é que desta vez estamos em sua recepção de casamento,
sim, o casamento dos chacais
você recebeu o convite

... Oh, Mudhaffar al-Nawab
façamos um trato:

eu vou em seu lugar
(Damasco é muito distante daquele hotel secreto [em Londres])
eu vou cuspir no rosto dos chacais,
vou cuspir em suas listas,
declaro que somos o povo do Iraque -
somos as árvores ancestrais desta terra,
orgulhosos debaixo de nosso modesto telhado de bambu.

Esse é o espírito dos iraquianos - que resistem, que sofreram com Saddam, mas se recusam a aceitar a ocupação.