domingo, 9 de novembro de 2008

Joaquim Pedro de Andrade responde: In porquoi Filmez-vous?

em: Libération, Paris, maio de 1987

Por que você faz cinema?
(Adriana Calcanhoto)

Para chatear os imbecis, para não ser aplaudido, depois de sequências dó de peito, para viver à beira do abismo, para correr o risco de ser desmascarado pelo grande público, para que conhecidos e desconhecidos ganhem dinheiro, sobretudo eu mesmo, porque de outro jeito a vida não vale a pena. Para ver e mostrar o nunca vista, o bem e o mal, o feio e o bonito, porque vi "Simão no deserto". Para insultar os arrogantes e poderosos quando ficam como "cachorros dentro d'água" no escuro do cinema. Para ser lesado em meus direitos autorais...

Clóvis Moura

Apresentação do livro em que Clóvis Moura fala sobre Canudos e a linha histórica que liga essa acontecimento com o MST, editado pela Expressão Popular.
boa leitura!!

Apresentação

Quando em 1959, em São Paulo, aos 34 anos, o jornalista, cientista social e militante do Partido comunista Brasileiro, Clovis Moura, publicou seu primeiro livro, Rebeliões da senzala, registrou-se um novo marco na interpretação da história do Brasil. Contrariando todo o pensamento da época, mesmo o de seu companheiro de militância Caio Prado Júnior, o jovem estreante defendia
desde então que, durante o período dominado pelo modo de produção escravista em nosso país, o eixo fundamental da luta de classes se concentrou entre os senhores brancos e os escravos negros.

Tanto os intelectuais do PC, como as universidadesbrasileiras resistiram à sua tese, que no entanto irá encontrar repercussão nos Estados Unidos.
Para Moura, o problema é que os PCs – não apenas brasileiros, mas os latino-americanos em geral – até o presente têm dificuldade em entender a questão raça/classe que envolveu e envolve a problemática dos africanos trazidos à força para as Américas durante o período colonial. De acordo com ele, quando o negro era trazido para o novo continente, ele já vinha marcado, enquadrado numa classe: a de escravo. O não entendimento disto faz com que o papel do negro escravo e em seguida o do ex-escravo permaneça uma categoria não muito definida.
Foi também nesse contexto que, afirma Moura, se criou o racismo, que não atinge apenas as elites.
Para ilustrar a dificuldades dos PCs frente à questão, o autor de Rebeliões da senzala conta
que, durante o processo constituinte pós-Estado Novo, o deputado Hamilton Nogueira (UDN) apresentou projeto contra o racismo a ser incluído na nova Constituição. No entanto, a bancada do PCB vota contra o projeto, sob o argumento de que no Brasil não existe luta de raças, mas de classes (!).
De qualquer modo, além de Rebeliões na senzala ter se tornado base para cursos e estudos nos EUA e ser considerado um clássico na China (onde foi traduzido), hoje, no Brasil, em sua quarta edição, é referência obrigatória para estudiosos que rediscutem o tema.
Mas o escravismo e a questão negra constituem apenas um dos quatro vieses da obra deste piauiense de Amarante, Clovis Steiger de Assis Moura, nascido em 10 de junho de 1925, e que tem entre seus antepassados um barão do império da Prússia (Ferdinando von Steiger, seu bisavô pelo lado materno) e, pelo lado paterno, a bisavó Carlota, a escrava negra de um português – seu bisavô. Os outros três vieses do seu trabalho se constituem pelo estudo dos movimentos camponeses no Brasil; pelos ensaios e investigações teóricos e, por fim, sua obra poética.
Com 24 títulos publicados, o autor acaba de concluir seu Dicionário da escravidão negra no Brasil, que será lançado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ. Tem pronto também seu sexto volume de poemas, Duelos com o infinito. O livro que ora apresentamos, faz parte de
seus estudos sobre as lutas no campo brasileiro, texto inédito cedido por Clovis (incluindo direitos autorais) para a Editora Expressão Popular. Aqui, além de importante reflexão teórica sobre a natureza e caráter político dos movimentos sociais em geral, e em particular dos movimentos camponeses, o leitor encontrará os elos históricos que nos fazem entender a Guerra Canudos e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra – o MST, como parte de uma mesma cadeia de resistência ao monopólio da propriedade da terra em nosso país – um dos
pontos cruciais de nosso atraso econômico e social. O comportamento das elites de antanho e do presente são, por sua vez, provas cabais da permanência da ignorância, reacionarismo e truculência das forças que desde sempre vêm dirigindo os destinos da Nação.
É isto enfim que nos ensina Clovis Moura que desde após o levante de Natal em 1935
(onde morava), ainda pré adolescente, passa a simpatizar com as idéias de esquerda, vindo
por fim encontrar o Partido Comunista somente em 1946, no interior da Bahia (Juazeiro) ao qual se ligará, militando naquele estado até 1949, quando se transfere para São Paulo, passando a atuar na Frente Cultural, organismo que reunia Caio Prado, Villanova Artigas, Artur Neves e outros importantes intelectuais comunistas.

Alipio Freire
São Paulo, maio de 2000