em: Libération, Paris, maio de 1987
Por que você faz cinema?
(Adriana Calcanhoto)
Para chatear os imbecis, para não ser aplaudido, depois de sequências dó de peito, para viver à beira do abismo, para correr o risco de ser desmascarado pelo grande público, para que conhecidos e desconhecidos ganhem dinheiro, sobretudo eu mesmo, porque de outro jeito a vida não vale a pena. Para ver e mostrar o nunca vista, o bem e o mal, o feio e o bonito, porque vi "Simão no deserto". Para insultar os arrogantes e poderosos quando ficam como "cachorros dentro d'água" no escuro do cinema. Para ser lesado em meus direitos autorais...
domingo, 9 de novembro de 2008
Clóvis Moura
Apresentação do livro em que Clóvis Moura fala sobre Canudos e a linha histórica que liga essa acontecimento com o MST, editado pela Expressão Popular.
boa leitura!!
Apresentação
Quando em 1959, em São Paulo, aos 34 anos, o jornalista, cientista social e militante do Partido comunista Brasileiro, Clovis Moura, publicou seu primeiro livro, Rebeliões da senzala, registrou-se um novo marco na interpretação da história do Brasil. Contrariando todo o pensamento da época, mesmo o de seu companheiro de militância Caio Prado Júnior, o jovem estreante defendia
desde então que, durante o período dominado pelo modo de produção escravista em nosso país, o eixo fundamental da luta de classes se concentrou entre os senhores brancos e os escravos negros.
Tanto os intelectuais do PC, como as universidadesbrasileiras resistiram à sua tese, que no entanto irá encontrar repercussão nos Estados Unidos.
Para Moura, o problema é que os PCs – não apenas brasileiros, mas os latino-americanos em geral – até o presente têm dificuldade em entender a questão raça/classe que envolveu e envolve a problemática dos africanos trazidos à força para as Américas durante o período colonial. De acordo com ele, quando o negro era trazido para o novo continente, ele já vinha marcado, enquadrado numa classe: a de escravo. O não entendimento disto faz com que o papel do negro escravo e em seguida o do ex-escravo permaneça uma categoria não muito definida.
Foi também nesse contexto que, afirma Moura, se criou o racismo, que não atinge apenas as elites.
Para ilustrar a dificuldades dos PCs frente à questão, o autor de Rebeliões da senzala conta
que, durante o processo constituinte pós-Estado Novo, o deputado Hamilton Nogueira (UDN) apresentou projeto contra o racismo a ser incluído na nova Constituição. No entanto, a bancada do PCB vota contra o projeto, sob o argumento de que no Brasil não existe luta de raças, mas de classes (!).
De qualquer modo, além de Rebeliões na senzala ter se tornado base para cursos e estudos nos EUA e ser considerado um clássico na China (onde foi traduzido), hoje, no Brasil, em sua quarta edição, é referência obrigatória para estudiosos que rediscutem o tema.
Mas o escravismo e a questão negra constituem apenas um dos quatro vieses da obra deste piauiense de Amarante, Clovis Steiger de Assis Moura, nascido em 10 de junho de 1925, e que tem entre seus antepassados um barão do império da Prússia (Ferdinando von Steiger, seu bisavô pelo lado materno) e, pelo lado paterno, a bisavó Carlota, a escrava negra de um português – seu bisavô. Os outros três vieses do seu trabalho se constituem pelo estudo dos movimentos camponeses no Brasil; pelos ensaios e investigações teóricos e, por fim, sua obra poética.
Com 24 títulos publicados, o autor acaba de concluir seu Dicionário da escravidão negra no Brasil, que será lançado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ. Tem pronto também seu sexto volume de poemas, Duelos com o infinito. O livro que ora apresentamos, faz parte de
seus estudos sobre as lutas no campo brasileiro, texto inédito cedido por Clovis (incluindo direitos autorais) para a Editora Expressão Popular. Aqui, além de importante reflexão teórica sobre a natureza e caráter político dos movimentos sociais em geral, e em particular dos movimentos camponeses, o leitor encontrará os elos históricos que nos fazem entender a Guerra Canudos e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra – o MST, como parte de uma mesma cadeia de resistência ao monopólio da propriedade da terra em nosso país – um dos
pontos cruciais de nosso atraso econômico e social. O comportamento das elites de antanho e do presente são, por sua vez, provas cabais da permanência da ignorância, reacionarismo e truculência das forças que desde sempre vêm dirigindo os destinos da Nação.
É isto enfim que nos ensina Clovis Moura que desde após o levante de Natal em 1935
(onde morava), ainda pré adolescente, passa a simpatizar com as idéias de esquerda, vindo
por fim encontrar o Partido Comunista somente em 1946, no interior da Bahia (Juazeiro) ao qual se ligará, militando naquele estado até 1949, quando se transfere para São Paulo, passando a atuar na Frente Cultural, organismo que reunia Caio Prado, Villanova Artigas, Artur Neves e outros importantes intelectuais comunistas.
Alipio Freire
São Paulo, maio de 2000
sábado, 27 de setembro de 2008
Eleições 2008
Pra não passar o mês em branco... Postando no apagar das luzes do mês de setembro...
Em período de eleições essa música diz muito... 99% dos candidatos são Caô Caô!!
Candidato Caô Caô
O Rappa
Composição: Letra E Música: Walter Meninão E Pedro Butina
Candidato caô caô
Caô, caô a justiça chegou...
Ele subiu o morro sem gravata
dizendo que gostava da raça, foi lá
na tendinha, bebeu cachaça e até
bagulho fumou
Foi no meu barracão, e lá
usou lata de goiabada como prato
eu logo percebi é mais um candidato
As próximas eleições
As próximas eleições
As próximas eleições
Fez questão de beber água da chuva
foi lá na macumba e pediu ajuda
bateu a cabeça no gongá
"deu azar"...
A entidade que estava incorporada disse:
- Esse político é safado cuidado na hora de votar !
também disse ...
- Meu irmão se liga no que eu vou lhe dizer
hoje ele pede seu voto, amanhã manda a polícia lhe bater ...
- Meu irmão se liga no que eu vou lhe dizer
hoje ele pede seu voto, amanhã manda a polícia lhe prender ...
hoje ele pede seu voto, amanhã manda a policia lhe bater ...
eu falei prá você, "viu"?
Esse político é safadão hein !!!
Nesse país que se divide em quem tem e quem não tem,
sempre o sacrifício cai no braço operário
Eu olho para um lado, eu olho para o outro
vejo desemprego e vejo quem manda no jogo
E você vem, vem, pede mais de mim
diz que tudo mudou e agora vai ter fim,
mas eu sei quem você é e ainda confio em mim
Esse jogo é muito sujo mas eu não desisto assim ...
Você me deve ...
Ah ah ah ah !!!
Malandro é malandro e mané é mané !!!
Você me deve ....
Você me deve seu canalhocrata!!!
Em período de eleições essa música diz muito... 99% dos candidatos são Caô Caô!!
Candidato Caô Caô
O Rappa
Composição: Letra E Música: Walter Meninão E Pedro Butina
Candidato caô caô
Caô, caô a justiça chegou...
Ele subiu o morro sem gravata
dizendo que gostava da raça, foi lá
na tendinha, bebeu cachaça e até
bagulho fumou
Foi no meu barracão, e lá
usou lata de goiabada como prato
eu logo percebi é mais um candidato
As próximas eleições
As próximas eleições
As próximas eleições
Fez questão de beber água da chuva
foi lá na macumba e pediu ajuda
bateu a cabeça no gongá
"deu azar"...
A entidade que estava incorporada disse:
- Esse político é safado cuidado na hora de votar !
também disse ...
- Meu irmão se liga no que eu vou lhe dizer
hoje ele pede seu voto, amanhã manda a polícia lhe bater ...
- Meu irmão se liga no que eu vou lhe dizer
hoje ele pede seu voto, amanhã manda a polícia lhe prender ...
hoje ele pede seu voto, amanhã manda a policia lhe bater ...
eu falei prá você, "viu"?
Esse político é safadão hein !!!
Nesse país que se divide em quem tem e quem não tem,
sempre o sacrifício cai no braço operário
Eu olho para um lado, eu olho para o outro
vejo desemprego e vejo quem manda no jogo
E você vem, vem, pede mais de mim
diz que tudo mudou e agora vai ter fim,
mas eu sei quem você é e ainda confio em mim
Esse jogo é muito sujo mas eu não desisto assim ...
Você me deve ...
Ah ah ah ah !!!
Malandro é malandro e mané é mané !!!
Você me deve ....
Você me deve seu canalhocrata!!!
quarta-feira, 6 de agosto de 2008
Salve Jorge!!
Sempre antenado com o que mais venho ouvindo, o blog apresenta Jorge Ben Jor, numa música muito linda e que, na versão do disco que leva o mesmo nome da música e que, em poucas palavras, resumi a história do povo negro no Brasil...
África Brasil (Zumbi)
Jorge Ben Jor
Composição: Indisponível
Angola, Congo, Benguela
Monjolo, Cabinda, Mina
Quiloa, Rebolo
Aqui onde estão os homens
Há um grande leilão
Dizem que nele há uma princesa à venda
Que veio junto com seus súditos
Acorrentados em carros de boi
Eu quero ver quando Zumbi chegar
Eu quero ver o que vai acontecer
Zumbi é senhor das guerras
Zumbi é senhor das demandas
Quando Zumbi chega, é Zumbi quem manda
Pois aqui onde estão os homens
Dum lado, cana-de-açúcar
Do outro lado, um imenso cafezal
Ao centro, senhores sentados
Vendo a colheita do algodão branco
Sendo colhidos por mãos negras
Eu quero ver quando Zumbi chegar
Eu quero ver o que vai acontecer
Zumbi é senhor das guerras
África Brasil (Zumbi)
Jorge Ben Jor
Composição: Indisponível
Angola, Congo, Benguela
Monjolo, Cabinda, Mina
Quiloa, Rebolo
Aqui onde estão os homens
Há um grande leilão
Dizem que nele há uma princesa à venda
Que veio junto com seus súditos
Acorrentados em carros de boi
Eu quero ver quando Zumbi chegar
Eu quero ver o que vai acontecer
Zumbi é senhor das guerras
Zumbi é senhor das demandas
Quando Zumbi chega, é Zumbi quem manda
Pois aqui onde estão os homens
Dum lado, cana-de-açúcar
Do outro lado, um imenso cafezal
Ao centro, senhores sentados
Vendo a colheita do algodão branco
Sendo colhidos por mãos negras
Eu quero ver quando Zumbi chegar
Eu quero ver o que vai acontecer
Zumbi é senhor das guerras
sexta-feira, 25 de julho de 2008
Curso com João Bernardo
Apesar de saber que quase ninguém lê esse blog, estou deixando essa convocatória para quem quiser, hoje ou a posteriore, conhecer mais o autor, já que têm links que oferecem essa oportunidade. Quem estiver afim é só entrar em contato com o email indicado abaixo. Caso se interessem, existe uma Ficha de Inscrição que pode ser solicitado no mesmo email.
Classes sociais, vanguardas e elites políticas
Curso com João Bernardo
(18 a 21 de agosto de 2008)
João Bernardo é um pensador marxista português, autor de uma obra elaborada nas últimas três décadas, e que reúne, além de inúmeros ensaios e artigos em revistas especializadas, um total de dezesseis livros, publicados em Portugal e no Brasil, alguns deles com tradução integral ou parcial para o francês e o espanhol.
Tendo como ponto de partida a experiência prática do movimento operário internacional nos séculos XIX e XX, em particular as práticas de ocupações de fábricas e de autogestão em empresas no período da Revolução dos Cravos (1974) e do "período revolucionário em curso" (PREC - 1974-1975) em Portugal, João Bernardo definiu seu projeto de marxismo centrado no que chama de "marxismo das relações de produção", que, como programa teórico e prático, contrapôs ao "marxismo das forças produtivas", representado pelos partidos comunistas da época e demais formas burocratizadas de organização.
Ainda na década de 1970, e em pleno processo revolucionário português, este programa político de autonomia do movimento operário fundamentou a construção do jornal Combate (1974-1978), um verdadeiro espaço de intercâmbio e solidariedade entre os trabalhadores em luta, cuja coleção completa hoje se encontra disponível na internet.
Desde então, João Bernardo tem aprofundado sua crítica simultânea ao capitalismo e às formas burocratizadas de luta anticapitalista em livros como "Para uma teoria do modo de produção comunista" (1975), "Marx crítico de Marx" (1977), "Capital, sindicatos, gestores" (1987), "Economia dos conflitos sociais" (1991), "Transnacionalização do capital e fragmentação dos trabalhadores" (2000), "Labirintos do fascismo" (2003), "Democracia totalitária" (2004) e outros.
Os temas sugeridos para o curso são:
a) Análise de conjuntura;b) Composição atual e fragmentação da classe trabalhadora;c) Vanguarda e partidos políticos;d) Estado, sindicatos e movimentos sociais (autonomia X institucionalização das lutas);e) Burocratização e autonomia nas lutas sociais;f) Aliança entre estudantes e trabalhadores;g) Os gestores enquanto classe dominante na fase atual do capitalismo.
Outras informações:
* O curso será realizado no CEAS (Rua Aristides Novis, 101 - Estrada de São Lázaro, Federação, próximo à Escola Politécnica/UFBa), das 18:30 às 21:30, com início no dia 18/08 e término no dia 21/08;* Para solicitar a inscrição, preencha a ficha em anexo e envie para o e-mail do curso (classesevanguardas@gmail.com);* Quando confirmarmos sua inscrição, enviaremos um número de conta para depósito da colaboração e outras orientações.
IMPORTANTE! Financiamento do curso:
* O curso será auto-construído e auto-financiado pelos participantes. Informe-se sobre as reuniões da Comissão de Organização;* Aqueles que não estiverem em condições de contribuir financeiramente com a construção do curso devem solicitar isenção;* Aos que podem colaborar, indicamos um valor de R$10,00 para estudantes e R$20,00 para trabalhadores empregados, podendo ser um valor maior caso tenha disponibilidade.
Curso com João Bernardo
(18 a 21 de agosto de 2008)
João Bernardo é um pensador marxista português, autor de uma obra elaborada nas últimas três décadas, e que reúne, além de inúmeros ensaios e artigos em revistas especializadas, um total de dezesseis livros, publicados em Portugal e no Brasil, alguns deles com tradução integral ou parcial para o francês e o espanhol.
Tendo como ponto de partida a experiência prática do movimento operário internacional nos séculos XIX e XX, em particular as práticas de ocupações de fábricas e de autogestão em empresas no período da Revolução dos Cravos (1974) e do "período revolucionário em curso" (PREC - 1974-1975) em Portugal, João Bernardo definiu seu projeto de marxismo centrado no que chama de "marxismo das relações de produção", que, como programa teórico e prático, contrapôs ao "marxismo das forças produtivas", representado pelos partidos comunistas da época e demais formas burocratizadas de organização.
Ainda na década de 1970, e em pleno processo revolucionário português, este programa político de autonomia do movimento operário fundamentou a construção do jornal Combate (1974-1978), um verdadeiro espaço de intercâmbio e solidariedade entre os trabalhadores em luta, cuja coleção completa hoje se encontra disponível na internet.
Desde então, João Bernardo tem aprofundado sua crítica simultânea ao capitalismo e às formas burocratizadas de luta anticapitalista em livros como "Para uma teoria do modo de produção comunista" (1975), "Marx crítico de Marx" (1977), "Capital, sindicatos, gestores" (1987), "Economia dos conflitos sociais" (1991), "Transnacionalização do capital e fragmentação dos trabalhadores" (2000), "Labirintos do fascismo" (2003), "Democracia totalitária" (2004) e outros.
Os temas sugeridos para o curso são:
a) Análise de conjuntura;b) Composição atual e fragmentação da classe trabalhadora;c) Vanguarda e partidos políticos;d) Estado, sindicatos e movimentos sociais (autonomia X institucionalização das lutas);e) Burocratização e autonomia nas lutas sociais;f) Aliança entre estudantes e trabalhadores;g) Os gestores enquanto classe dominante na fase atual do capitalismo.
Outras informações:
* O curso será realizado no CEAS (Rua Aristides Novis, 101 - Estrada de São Lázaro, Federação, próximo à Escola Politécnica/UFBa), das 18:30 às 21:30, com início no dia 18/08 e término no dia 21/08;* Para solicitar a inscrição, preencha a ficha em anexo e envie para o e-mail do curso (classesevanguardas@gmail.com);* Quando confirmarmos sua inscrição, enviaremos um número de conta para depósito da colaboração e outras orientações.
IMPORTANTE! Financiamento do curso:
* O curso será auto-construído e auto-financiado pelos participantes. Informe-se sobre as reuniões da Comissão de Organização;* Aqueles que não estiverem em condições de contribuir financeiramente com a construção do curso devem solicitar isenção;* Aos que podem colaborar, indicamos um valor de R$10,00 para estudantes e R$20,00 para trabalhadores empregados, podendo ser um valor maior caso tenha disponibilidade.
Contra a criminalização dos movimentos sociais
Retirado do site: www.revolutas.net
Contra a criminalização dos movimentos sociais. Participe!
Estimados amigos/as
Os movimentos sociais da assembleia popular, da via campesina Brasil e outras entidades do povo brasileiro, tomaram a iniciativa de realizar uma campanha nacional de envio de cartas a autoridades brasileiras durante a semana de 22 a 25 de julho de 2008.
Essas cartas tratam de diversos casos em que está havendo clara perseguição e tentativa de criminalizar os movimentos sociais e seus militantes.
Em anexo, estamos enviando quatro cartas com diferentes destinatários, conforme o caso e seus respectivos correios eletrônicos a quem enviar a carta.
1. Uma carta dirigida às autoridades, STF etc, cobrando o respeito aos direitos. Em especial, denunciado a espionagem e a solução definitiva para o caso da raposa serra do sol, que será novamente julgada na primeira semana de agosto.
2. Carta ao Tribunal Federal de Porto alegre, contra o enquadramento de oito militantes do MST na LSN em processo aberto em Carazinho-RS, cuja primeira audiência será dia 29 de julho. Dai também a urgência de serem enviados ate dia 25 de julho.
3. Carta a governadora do RS protestando contra sua política repressora.
4. carta ao Tribunal Federal de Brasil que ira julgar recurso, contra a condenação a dois anos de prisão do advogado Jose Batista da CPT de Marabá.
Todas essas cartas devem ser enviadas por correio eletrônico mais tardar até 25 de julho, para terem também efeito legal.
Pedimos a quem aderir que coloque o nome, RG, entidade a que pertence, se for o caso, e o município onde mora.
Divulguem a campanha entre seus amigos, e entidades. Quanto mais cartas chegarem aos destinatários, melhor.
Se você preferir fazer outra versão de carta, sinta-se à vontade.
Saudações
Secretaria Operativa da Via Campesina Brasil
Moção Batista CPT Pará
Carta à governadora Yeda Crusius
Carta ao TRF sobre processo em Carazinho
Carta as autoridades brasileiras
FONTE: MST SITE: www.mst.org.br Publicação: 21/07/2008
Contra a criminalização dos movimentos sociais. Participe!
Estimados amigos/as
Os movimentos sociais da assembleia popular, da via campesina Brasil e outras entidades do povo brasileiro, tomaram a iniciativa de realizar uma campanha nacional de envio de cartas a autoridades brasileiras durante a semana de 22 a 25 de julho de 2008.
Essas cartas tratam de diversos casos em que está havendo clara perseguição e tentativa de criminalizar os movimentos sociais e seus militantes.
Em anexo, estamos enviando quatro cartas com diferentes destinatários, conforme o caso e seus respectivos correios eletrônicos a quem enviar a carta.
1. Uma carta dirigida às autoridades, STF etc, cobrando o respeito aos direitos. Em especial, denunciado a espionagem e a solução definitiva para o caso da raposa serra do sol, que será novamente julgada na primeira semana de agosto.
2. Carta ao Tribunal Federal de Porto alegre, contra o enquadramento de oito militantes do MST na LSN em processo aberto em Carazinho-RS, cuja primeira audiência será dia 29 de julho. Dai também a urgência de serem enviados ate dia 25 de julho.
3. Carta a governadora do RS protestando contra sua política repressora.
4. carta ao Tribunal Federal de Brasil que ira julgar recurso, contra a condenação a dois anos de prisão do advogado Jose Batista da CPT de Marabá.
Todas essas cartas devem ser enviadas por correio eletrônico mais tardar até 25 de julho, para terem também efeito legal.
Pedimos a quem aderir que coloque o nome, RG, entidade a que pertence, se for o caso, e o município onde mora.
Divulguem a campanha entre seus amigos, e entidades. Quanto mais cartas chegarem aos destinatários, melhor.
Se você preferir fazer outra versão de carta, sinta-se à vontade.
Saudações
Secretaria Operativa da Via Campesina Brasil
Moção Batista CPT Pará
Carta à governadora Yeda Crusius
Carta ao TRF sobre processo em Carazinho
Carta as autoridades brasileiras
FONTE: MST SITE: www.mst.org.br Publicação: 21/07/2008
Clássicos: Economia Política por Marx
retirado do site: www.marxists.org - seção: Karl Marx e Friedrich Engels - Grundrisse
Introdução à Crítica da Economia Política - Karl Marx
3. O Método da Economia Política
Ao estudarmos um determinado país do ponto de vista da sua economia política, começamos por analisar a sua população, a divisão desta em classes, a cidade, o campo, o mar, os diferentes ramos da produção, a exportação e a importação, a produção e o consumo anuais, os preços das mercadorias, etc.
Parece correto começar pelo real e o concreto, pelo que se supõe efetivo; por exemplo, na economia, partir da população, que constitui a base e o sujeito do ato social da produção no seu conjunto. Contudo, a um exame mais atento, tal revela-se falso. A população é uma abstração quando, por exemplo, deixamos de lado as classes de que se compõe. Por sua vez, estas classes serão uma palavra oca se ignorarmos os elementos em que se baseiam, por exemplo, o trabalho assalariado, o capital, etc. Estes últimos supõem a troca, a divisão do trabalho, os preços, etc. O capital, por exemplo, não é nada sem o trabalho assalariado, sem o valor, sem o dinheiro, sem os preços, etc.
Por conseguinte, se começássemos simplesmente pela população, teríamos uma visão caótica do conjunto. Por uma análise cada vez mais precisa chegaríamos a representações cada vez mais simples; do concreto inicialmente representado passaríamos a abstrações progressivamente mais sutis até alcançarmos as determinações mais simples. Aqui chegados, teríamos que empreender a viagem de regresso até encontrarmos de novo a população - desta vez não teríamos uma idéia caótica de todo, mas uma rica totalidade com múltiplas determinações e relações.
Tal foi historicamente, a primeira via adotada pela economia política ao surgir. Os economistas do século XVII, por exemplo, partem sempre do todo vivo: a população, a nação, o Estado, vários Estados, etc.,; no entanto, acabam sempre por descobrir, mediante a análise, um certo número de relações gerais abstratas determinantes, tais como a divisão do trabalho, o dinheiro, o valor, etc. Uma vez fixados e mais ou menos elaborados estes fatores começam a surgir os sistemas econômicos que, partindo de noções simples - trabalho, divisão do trabalho, necessidade, valor de troca - se elevam até ao Estado, à troca entre nações, ao mercado universal. Eis, manifestamente, o método científico correto.
O concreto é concreto porque é a síntese de múltiplas determinações e, por isso, é a unidade do diverso. Aparece no pensamento como processo de síntese, como resultado, e não como ponto de partida, embora seja o verdadeiro ponto de partida, e, portanto, também, o ponto de partida da intuição e da representação. No primeiro caso, a representação plena é volatilizada numa determinação abstrata; no segundo caso, as determinações abstratas conduzem à reprodução do concreto pela via do pensamento. Eis por que Hegel caiu na ilusão de conceber o real como resultado do pensamento que, partindo de si mesmo se concentra em si mesmo, se aprofunda em si mesmo e se movimenta por si mesmo; ao passo que o método que consiste em elevar-se do abstrato ao concreto é, para o pensamento, apenas a maneira de se apropriar do concreto, de o reproduzir na forma de concreto pensado; porém, não é este de modo nenhum o processo de gênese do concreto em si. Com efeito, a mais simples categoria econômica - por exemplo, o valor de troca - supõe uma população, população essa que produz em condições determinadas; supõe ainda um certo tipo de família, ou de comunidade, ou de Estado, etc. Tal valor não pode existir nunca senão sob a forma de relação unilateral e abstrata, no seio de um todo concreto e vivo já dado. Pelo contrário, como categoria, o valor de troca tem uma existência anti-diluviana.
Assim, para a consistência filosófica - que considera que o pensamento que concebe é o homem real, e que, portanto, o mundo só é real quando concebido -para esta consciência, é o movimento das categorias que lhe aparece com um verdadeiro ato de produção (o qual recebe do exterior um pequeno impulso, coisa que esta consciência só muito a contra gosto admite> que produz o mundo. Isto é exato (embora aqui nos vamos encontrar com uma nova tautologia>, na medida em que a totalidade concreta, enquanto totalidade do pensamento, enquanto concreto do pensamento é in fact um produto do pensamento, do ato de conceber; não é de modo nenhum, porém, produto do conceito que pensa e se gera a si próprio e que atua fora e acima da intuição e da representação; pelo contrário, é um produto do trabalho de elaboração, que transforma a intuição e a representação em conceitos. O todo, tal como aparece na mente como um todo pensamento, é produto da mente que pensa e se apropria do mundo do único modo que lhe é possível; modo que difere completamente da apropriação desse mundo na arte, na religião, no espírito prático. O sujeito real conserva a sua autonomia fora da mente, antes e depois, pelo menos durante o tempo em que o cérebro se comporte de maneira puramente especulativa, teórica. Por consequência, também no método teórico é necessário que o sujeito - a sociedade - esteja constantemente presente na representação como ponto de partida.
Mas não terão também estas categorias simples uma existência histórica ou natural autônoma anterior às categorias concretas? Ça dépend; Hegel, por exemplo, tem razão em começar a sua Filosofia do Direito pela posse, a mais simples das relações jurídicas entre indivíduos; ora não existe posse antes da família ou das relações de servidão e dominação, que são relações muito mais concretas; em contrapartida, seria correto dizer que existem famílias e tribos que se limitam a possuir, mas que não têm propriedade. A categoria mais simples relativa à posse aparece, portanto, como uma relação de simples comunidades familiares ou de tribos; numa sociedade mais avançada, aparece como a relação mais simples de uma organização mais desenvolvida; porém, está sempre implícito o sujeito concreto cuja relação é a posse. Podemos imaginar um selvagem isolado que seja possuidor, mas, neste caso, a posse não é uma relação jurídica. Não é exato que, historicamente, a posse evolua até à família; pelo contrário, a posse pressupõe sempre a existência dessa "categoria jurídica mais concreta".
Seja como for, não deixa de ser verdade que as categorias simples são expressão de relações nas quais o concreto menos desenvolvido pode já ter-se realizado sem estabelecer ainda a relação ou o vínculo mais multilateral expresso teoricamente na categoria mais correta; esta categoria simples pode substituir como relação secundária quando a entidade concreta se encontra mais desenvolvida. O dinheiro pode existir, e de fato existiu historicamente, antes do capital, dos bancos, do trabalho assalariado, etc.; deste ponto de vista pode afirmar-se que a categoria mais simples pode exprimir relações dominantes de um todo não desenvolvido, ou relações secundárias de um todo mais desenvolvido, relações essas que já existiam historicamente antes de o todo se ter desenvolvido no sentido expresso por uma categoria _mais concreta. Só então o percurso do pensamento abstrato, que se eleva do simples ao complexo, poderia corresponder ao processo histórico real.
Por outro lado, podemos afirmar que existem formas de sociedade muito desenvolvidas, embora historicamente imaturas; nelas encontramos as formas mais elevadas da economia, tais como a cooperação, uma desenvolvida divisão do trabalho, etc., sem que exista qualquer espécie de dinheiro; tal é o caso do Peru. Assim também, nas comunidades eslavas, o dinheiro e a troca que o condiciona não aparecem, ou aparecem muito raramente no seio de cada comunidade, mas já surgem nos seus confins, no tráfico com outras comunidades. De aqui que seja em geral errado situar a troca interna à comunidade como o elemento constitutivo originário. A princípio, a troca surge de preferência nas relações entre comunidades, mais do que nas relações entre indivíduos no interior de uma única comunidade.
Além disso, se bem que o dinheiro tenha desempenhado desde muito cedo um papel múltiplo, na Antiguidade só pertence, como elemento dominante, a certas nações unilateralmente determinadas, a nações comerciais; e até na própria antiguidade mais evoluída, na Grécia e em Roma, o dinheiro só vem a alcançar o seu pleno desenvolvimento - um dos pressupostos da sociedade burguesa moderna - no período da dissolução.
Por conseguinte, esta categoria inteiramente simples, só aparece historicamente em toda a sua intensidade nas condições mais desenvolvidas da sociedade. Mas não impregna de maneira nenhuma todas as relações econômicas; no apogeu do Império Romano, por exemplo, o tributo e as prestações em gêneros continuavam a ser fundamentais; o dinheiro propriamente dito só estava completamente desenvolvido no exército. Nunca chegou a dominar na totalidade da esfera do trabalho.
De modo que - embora historicamente a categoria mais simples possa ter existido antes da categoria mais concreta - ela só pode pertencer, no seu pleno desenvolvimento intensivo e extensivo, a uma forma de sociedade complexa, ao passo que a categoria mais concreta se encontrava mais desenvolvida numa forma de sociedade mais atrasada.
O trabalho parece ser uma categoria muito simples; e a idéia de trabalho nesse sentido - isto é trabalho, sem mais - é muito antiga. No entanto, tomando esta sua simplicidade do ponto de vista econômico, o "trabalho" é uma categoria tão moderna como as relações que originam esta mesma abstração simples. O monetarismo, por exemplo - de forma perfeitamente objetiva situava ainda a riqueza no dinheiro, considerando-a como algo de exterior. Relativamente a isto, operou-se um grande progresso quando o sistema manufatureiro ou comercial passou a situar a fonte de riqueza, não no objeto, mas na atividade subjetiva - o trabalho, manufatureiro ou comercial - embora continuasse a conceber esta atividade apenas como atividade limitada produtora de dinheiro. Com relação a este sistema, o dos fisiocratas [realiza novo progresso e] situa a fonte de riqueza numa forma determinada de trabalho - o trabalho agrícola; além disso, concebia o objeto não como a forma exterior do dinheiro, mas como produto enquanto tal, como resultado geral do trabalho. Mesmo assim, dado o caráter limitado da atividade, este produto continua a ser um produto determinado da natureza, quer dizer, um produto agrícola, produto da terra par excellence, Progrediu-se imenso quando Adam Smith rejeitou toda e qualquer especificação acerca das formas particulares da atividade criadora de riqueza, considerando-a como trabalho puro e simples, isto é, nem trabalho manufatureiro, nem trabalho comercial, nem trabalho agrícola, mas qualquer deles, indiferentemente; a esta universalidade da atividade criadora de riqueza corresponde a universalidade do objeto enquanto riqueza -produto em geral, quer dizer trabalho em geral, embora [neste caso] se trate de trabalho passado, objetivado. A dificuldade e a importância desta transição para a nova concepção, está patente no fato de o próprio Adam Smith, aqui e ali, pender para o sistema fisiocrático.
Poderia agora parecer que se encontrou muito simplesmente a expressão abstrata da mais antiga e mais simples relação que, na sua qualidade de produtores, os homens estabeleceram entre si - e isto independentemente da forma da sociedade. Isto é verdadeiro num sentido, e falso noutro. Com efeito, a indiferença em relação a toda a forma particular de trabalho supõe a existência de um conjunto muito diversificado de gêneros reais de trabalho, nenhum dos quais predomina sobre os outros. Assim as abstrações mais gerais apenas podem surgir quando surge o desenvolvimento mais rico do concreto, quando um elemento aparece como o que é comum a muitos, como comum a todos. Então, já não pode ser pensado unicamente como forma particular. Por outro lado, esta abstração do trabalho em geral não é apenas o resultado intelectual de um todo concreto de trabalhos: a indiferença em relação a uma forma determinada de trabalho corresponde a uma forma de sociedade na qual os indivíduos podem passar facilmente de um trabalho para outro, sendo para eles fortuito - e portanto indiferente - o gênero determinado do trabalho. Nestas condições, o trabalho transformou-se - não só como categoria, mas na própria realidade - num meio de produzir riqueza em geral e, como determinação já não está adstrito ao individuo como sua particularidade. Este estado de coisas atingiu o seu maior desenvolvimento na forma mais moderna das sociedades burguesas - os Estados Unidos; consequentemente, só nos Estados Unidos a categoria abstrata "trabalho", "trabalho em geral", trabalho sans phrase - ponto de partida da economia moderna - se tornou uma verdade prática. Deste modo, a abstração mais simples - que a economia moderna põe em primeiro plano, como expressão de uma relação antiquíssima e válida para todas as formas de sociedade - só vem a aparecer como verdade prática- e com este grau de abstração - enquanto categoria da sociedade moderna.
Poder-se-ia dizer que a indiferença em relação a toda a forma determinada de trabalho, que nos Estados Unidos é um produto histórico, se manifesta entre os russos, por exemplo, como uma disposição natural. Contudo, há uma diferença considerável entre bárbaros aptos para qualquer trabalho e civilizados que por si próprios se dedicam a tudo; além disso, esta indiferença em relação a qualquer forma determinada de trabalho corresponde na prática, entre os russos, à sua sujeição tradicional a um trabalho bem determinado, a que só podem arrancá-los influências exteriores. Este exemplo do trabalho mostra com clareza que as categorias mais abstratas, embora sejam válidas para todas as épocas (devido à sua natureza abstrata, precisamente), são também - no que a sua abstração tem de determinado - o produto de condições históricas e só são plenamente válidas para estas condições e dentro dos seus limites.
A sociedade burguesa é a mais complexa e desenvolvida organização histórica da produção. As categorias que exprimem as relações desta sociedade, e que permitem compreender a sua estrutura, permitem-nos ao mesmo tempo entender a estrutura e as relações de produção das sociedades desaparecidas, sobre cujas ruínas e elementos ela se ergueu, cujos vestígios ainda não superados continua a arrastar consigo, ao mesmo tempo que desenvolve em si a significação plena de alguns indícios prévios, etc. A anatomia do homem dá-nos uma chave para compreender a anatomia do macaco. Por outro lado as virtualidades que anunciam uma forma superior nas espécies animais inferiores só pode ser compreendidas quando a própria forma superior é já conhecida. Do mesmo modo, a economia burguesa dá-nos a chave da economia da Antiguidade, etc., - embora nunca à maneira dos economistas, que suprimem todas as diferenças históricas e vêm a forma burguesa em todas as formas de sociedade. Podemos compreender o tributo, a dízima, etc., quando conhecemos a renda fundiária; mas não há razão para identificar uns com a outra. Além disso, como a sociedade burguesa não é em si mais do que uma forma antagônica do desenvolvimento histórico, certas relações pertencentes a sociedades anteriores só aparecem nesta sociedade de maneira atrofiada, ou mesmo disfarçada. Por exemplo, a propriedade comunal.Por conseguinte, sendo embora verdade que as categorias da economia burguesa são até certo ponto válidas para todas as outras formas de sociedade, tal deve ser admitido cum grano salis; podem conter essas formas de um modo desenvolvido, ou atrofiado, ou caricaturado, etc.; porém, existirá sempre uma diferença essencial. A invocação da chamada evolução histórica repousa geralmente no fato de que a última forma de sociedade considera as outras como simples etapas que a ela conduzem e, dado que só em raras ocasiões, só em condições bem determinadas, é capaz de fazer a sua própria crítica - não falamos, claro, dos períodos históricos que se consideram a si próprios como uma época de decadência - concebe sempre essas etapas de um modo unilateral. A religião cristã só pode contribuir para que se compreendessem de um modo objetivo as mitologias anteriores, quando se prontificou até certo ponto, por assim dizer virtualmente, a fazer a sua própria auto-crítica. Do msmo modo, a economia burguesa só ascendeu à compreensão das sociedades feudal, clássica e oriental, quando começou a criticar-se a si própria. A crítica a que a economia burguesa submeteu as sociedades anteriores - especialmente o feudalismo, contra o qual a burguesia teve de lutar diretamente - assemelha-se à critica do paganismo pelo cristianismo, ou até à do catolicismo pelo protestantismo - isto quando não se identificou pura e simplesmente com o passado, fabricando a sua própria mitologia.
Como, em geral, em toda a ciência histórica, social, ao observar o desenvolvimento das categorias econômicas há que ter sempre presente que o sujeito - neste caso a sociedade burguesa moderna - é algo dado tanto na realidade como na mente; e que, por conseguinte, essas categorias exprimem formas e modos de existência, amiudadamente simples aspectos desta sociedade, deste sujeito; e que, portanto, mesmo do ponto de vista científico, esta sociedade não começa a existir de maneira nenhuma apenas a partir do momento em que se começa a falar dela como tal. uma regra a fixar, pois dá-nos elementos decisivos para o [nosso] plano [de estudo]. Por exemplo, parecia naturalíssimo começar [a nossa análise] pela renda imobiliária, pela propriedade agrária, pois estão ligadas à terra, fonte de toda a produção e de toda a existência, e também àquela que foi a primeira forma de produção de todas as sociedades mais ou menos estabilizadas - a agricultura; ora, nada seria mais errado do que isto; em todas as formações sociais, existe uma produção determinada que estabelece os limites e a importância de todas as outras e cujas relações determinam, portanto, os limites e importância das outras todas. E a iluminação geral que banha todas as cores e modifica as suas tonalidades particulares. como um éter particular que determina o peso específico de todas as formas de existência que nele se salientam.
Consideremos por exemplo os povos de pastores (os povos de simples caçadores e scadores não atingiram ainda o ponto em que começa o verdadeiro desenvolvimento>. Encontramos nestes povos uma forma esporádica de agricultura. Desse modo se determina a propriedade agrária. Esta propriedade é comum e conserva mais ou menos esta forma, consoante estes povos estão mais ou menos ligados às suas tradições: é o caso da propriedade comunal entre os Eslavos.
Nos povos que praticam a agricultura sedentária - e a sedentarização é já um progresso importante - e em que predomina essa atividade, como na Antiguidade e na sociedade feudal, a própria indústria, bem como a sua organização e as formas de propriedade que lhe correspondem, reveste-se - em maior ou menor grau -do caráter da propriedade agrária; a indústria, ou depende completamente da agricultura, como na Roma Antiga ou reproduz, na cidade, a organização e as relações do campo, como na Idade Média; o próprio capital - à exceção do puro e simples capital monetário - reveste-se na Idade Média, na forma de instrumentos de trabalho artesanal, etc., desse caráter de propriedade agrária. Na sociedade burguesa sucede o contrário: a agricultura transforma-se cada vez mais num simples ramo industrial, e é completamente dominada pelo capital. O mesmo se passa com a renda agrária. Em todas as formas de sociedade em que domina a propriedade agrária, a relação com a natureza é ainda preponderante. Em contrapartida, naqueles em que domina o capital, são [preponderantes] os elementos socialmente, historicamente criados. Não se pode compreender a renda imobiliária sem o capital, mas pode-se compreender o capital sem a renda imobiliária. O capital é a potência econômica da sociedade burguesa, potência que domina tudo; constitui necessariamente o ponto de partida e o ponto de chegada, e deve, portanto, ser analisado antes da propriedade agrária; uma vez analisado cada um em particular devem ser estudadas as suas relações recíprocas.
Por conseguinte, seria impraticável e errado apresentar a sucessão das categorias econômicas pela ordem que foram historicamente determinantes; a sua ordem, pelo contrário, é determinada pelas relações que mantêm entre si na moderna sociedade burguesa, ordem essa que é exatamente a inversa da que parece ser a sua ordem natural ou a do seu desenvolvimento histórico. Não está em causa a posição que as relações econômicas ocupam historicamente na sucessão das diferentes formas de sociedade; nem tampouco a sua ordem de sucessão "na idéia" (Proudhon), (uma representação nebulosa do movimento histórico). O que nos interessa é a sua estruturação no interior da moderna sociedade burguesa.
Os povos comerciantes - Fenícios, Cartagineses -surgiram em toda a sua pureza no mundo antigo; esta pureza (caráter determinado abstrato) deve-se precisamente à própria predominância dos povos agricultores; o capital, comercial ou monetário, aparece justamente sob esta forma abstrata sempre que o capital não é ainda o elemento dominante das sociedades. Lombardos e Judeus ocupam uma posição semelhante relativamente às sociedades medievais que praticam a agricultura.
Outro exemplo [ilustrativo] das posições diferentes que as mesmas categorias ocupam em diferentes estágios da sociedade: as sociedades por ações (joint - stock - companies), uma das mais recentes instituições da sociedade burguesa, apareciam já no dealbar da era burguesa, nas grandes companhias mercantis que gozavam de privilégios e monopólios.
O próprio conceito da riqueza nacional insinua-se nos economistas do século XVII - e subsiste em parte nos do século XVIII - sob um aspecto tal que a riqueza aparece como criada exclusivamente para o Estado, cujo poder é proporcional a essa riqueza. Esta era uma forma, ainda inconscientemente hipócrita, sob a qual se anunciava a riqueza e a sua produção como o objetivo dos Estados modernos, considerados unicamente como meios de produzir riqueza.
Estabelecer claramente a divisão [dos nossos estudos] de maneira tal que [se tratem]:
1) As determinações abstratas gerais mais ou menos válidas para todas as formas de sociedade, mas no sentido atrás exposto.
2) As categorias que constituem a estrutura interna da sociedade burguesa, sobre as quais repousam as classes fundamentais. O capital, o trabalho assalariado, a propriedade agrária; as suas relações recíprocas. A cidade e o campo. As três grandes classes sociais; a troca entre estas. A circulação. O crédito (privado).
3) Síntese da sociedade burguesa, sob a forma de Estado, considerada em relação consigo própria. As classes "improdutivas". Os impostos. A dívida pública. O crédito público. A população. As colônias. A emigração.
4) As relações internacionais da produção. A divisão internacional. A exportação e a importação. Os câmbios.
5) O mercado mundial e as crises.
Introdução à Crítica da Economia Política - Karl Marx
3. O Método da Economia Política
Ao estudarmos um determinado país do ponto de vista da sua economia política, começamos por analisar a sua população, a divisão desta em classes, a cidade, o campo, o mar, os diferentes ramos da produção, a exportação e a importação, a produção e o consumo anuais, os preços das mercadorias, etc.
Parece correto começar pelo real e o concreto, pelo que se supõe efetivo; por exemplo, na economia, partir da população, que constitui a base e o sujeito do ato social da produção no seu conjunto. Contudo, a um exame mais atento, tal revela-se falso. A população é uma abstração quando, por exemplo, deixamos de lado as classes de que se compõe. Por sua vez, estas classes serão uma palavra oca se ignorarmos os elementos em que se baseiam, por exemplo, o trabalho assalariado, o capital, etc. Estes últimos supõem a troca, a divisão do trabalho, os preços, etc. O capital, por exemplo, não é nada sem o trabalho assalariado, sem o valor, sem o dinheiro, sem os preços, etc.
Por conseguinte, se começássemos simplesmente pela população, teríamos uma visão caótica do conjunto. Por uma análise cada vez mais precisa chegaríamos a representações cada vez mais simples; do concreto inicialmente representado passaríamos a abstrações progressivamente mais sutis até alcançarmos as determinações mais simples. Aqui chegados, teríamos que empreender a viagem de regresso até encontrarmos de novo a população - desta vez não teríamos uma idéia caótica de todo, mas uma rica totalidade com múltiplas determinações e relações.
Tal foi historicamente, a primeira via adotada pela economia política ao surgir. Os economistas do século XVII, por exemplo, partem sempre do todo vivo: a população, a nação, o Estado, vários Estados, etc.,; no entanto, acabam sempre por descobrir, mediante a análise, um certo número de relações gerais abstratas determinantes, tais como a divisão do trabalho, o dinheiro, o valor, etc. Uma vez fixados e mais ou menos elaborados estes fatores começam a surgir os sistemas econômicos que, partindo de noções simples - trabalho, divisão do trabalho, necessidade, valor de troca - se elevam até ao Estado, à troca entre nações, ao mercado universal. Eis, manifestamente, o método científico correto.
O concreto é concreto porque é a síntese de múltiplas determinações e, por isso, é a unidade do diverso. Aparece no pensamento como processo de síntese, como resultado, e não como ponto de partida, embora seja o verdadeiro ponto de partida, e, portanto, também, o ponto de partida da intuição e da representação. No primeiro caso, a representação plena é volatilizada numa determinação abstrata; no segundo caso, as determinações abstratas conduzem à reprodução do concreto pela via do pensamento. Eis por que Hegel caiu na ilusão de conceber o real como resultado do pensamento que, partindo de si mesmo se concentra em si mesmo, se aprofunda em si mesmo e se movimenta por si mesmo; ao passo que o método que consiste em elevar-se do abstrato ao concreto é, para o pensamento, apenas a maneira de se apropriar do concreto, de o reproduzir na forma de concreto pensado; porém, não é este de modo nenhum o processo de gênese do concreto em si. Com efeito, a mais simples categoria econômica - por exemplo, o valor de troca - supõe uma população, população essa que produz em condições determinadas; supõe ainda um certo tipo de família, ou de comunidade, ou de Estado, etc. Tal valor não pode existir nunca senão sob a forma de relação unilateral e abstrata, no seio de um todo concreto e vivo já dado. Pelo contrário, como categoria, o valor de troca tem uma existência anti-diluviana.
Assim, para a consistência filosófica - que considera que o pensamento que concebe é o homem real, e que, portanto, o mundo só é real quando concebido -para esta consciência, é o movimento das categorias que lhe aparece com um verdadeiro ato de produção (o qual recebe do exterior um pequeno impulso, coisa que esta consciência só muito a contra gosto admite> que produz o mundo. Isto é exato (embora aqui nos vamos encontrar com uma nova tautologia>, na medida em que a totalidade concreta, enquanto totalidade do pensamento, enquanto concreto do pensamento é in fact um produto do pensamento, do ato de conceber; não é de modo nenhum, porém, produto do conceito que pensa e se gera a si próprio e que atua fora e acima da intuição e da representação; pelo contrário, é um produto do trabalho de elaboração, que transforma a intuição e a representação em conceitos. O todo, tal como aparece na mente como um todo pensamento, é produto da mente que pensa e se apropria do mundo do único modo que lhe é possível; modo que difere completamente da apropriação desse mundo na arte, na religião, no espírito prático. O sujeito real conserva a sua autonomia fora da mente, antes e depois, pelo menos durante o tempo em que o cérebro se comporte de maneira puramente especulativa, teórica. Por consequência, também no método teórico é necessário que o sujeito - a sociedade - esteja constantemente presente na representação como ponto de partida.
Mas não terão também estas categorias simples uma existência histórica ou natural autônoma anterior às categorias concretas? Ça dépend; Hegel, por exemplo, tem razão em começar a sua Filosofia do Direito pela posse, a mais simples das relações jurídicas entre indivíduos; ora não existe posse antes da família ou das relações de servidão e dominação, que são relações muito mais concretas; em contrapartida, seria correto dizer que existem famílias e tribos que se limitam a possuir, mas que não têm propriedade. A categoria mais simples relativa à posse aparece, portanto, como uma relação de simples comunidades familiares ou de tribos; numa sociedade mais avançada, aparece como a relação mais simples de uma organização mais desenvolvida; porém, está sempre implícito o sujeito concreto cuja relação é a posse. Podemos imaginar um selvagem isolado que seja possuidor, mas, neste caso, a posse não é uma relação jurídica. Não é exato que, historicamente, a posse evolua até à família; pelo contrário, a posse pressupõe sempre a existência dessa "categoria jurídica mais concreta".
Seja como for, não deixa de ser verdade que as categorias simples são expressão de relações nas quais o concreto menos desenvolvido pode já ter-se realizado sem estabelecer ainda a relação ou o vínculo mais multilateral expresso teoricamente na categoria mais correta; esta categoria simples pode substituir como relação secundária quando a entidade concreta se encontra mais desenvolvida. O dinheiro pode existir, e de fato existiu historicamente, antes do capital, dos bancos, do trabalho assalariado, etc.; deste ponto de vista pode afirmar-se que a categoria mais simples pode exprimir relações dominantes de um todo não desenvolvido, ou relações secundárias de um todo mais desenvolvido, relações essas que já existiam historicamente antes de o todo se ter desenvolvido no sentido expresso por uma categoria _mais concreta. Só então o percurso do pensamento abstrato, que se eleva do simples ao complexo, poderia corresponder ao processo histórico real.
Por outro lado, podemos afirmar que existem formas de sociedade muito desenvolvidas, embora historicamente imaturas; nelas encontramos as formas mais elevadas da economia, tais como a cooperação, uma desenvolvida divisão do trabalho, etc., sem que exista qualquer espécie de dinheiro; tal é o caso do Peru. Assim também, nas comunidades eslavas, o dinheiro e a troca que o condiciona não aparecem, ou aparecem muito raramente no seio de cada comunidade, mas já surgem nos seus confins, no tráfico com outras comunidades. De aqui que seja em geral errado situar a troca interna à comunidade como o elemento constitutivo originário. A princípio, a troca surge de preferência nas relações entre comunidades, mais do que nas relações entre indivíduos no interior de uma única comunidade.
Além disso, se bem que o dinheiro tenha desempenhado desde muito cedo um papel múltiplo, na Antiguidade só pertence, como elemento dominante, a certas nações unilateralmente determinadas, a nações comerciais; e até na própria antiguidade mais evoluída, na Grécia e em Roma, o dinheiro só vem a alcançar o seu pleno desenvolvimento - um dos pressupostos da sociedade burguesa moderna - no período da dissolução.
Por conseguinte, esta categoria inteiramente simples, só aparece historicamente em toda a sua intensidade nas condições mais desenvolvidas da sociedade. Mas não impregna de maneira nenhuma todas as relações econômicas; no apogeu do Império Romano, por exemplo, o tributo e as prestações em gêneros continuavam a ser fundamentais; o dinheiro propriamente dito só estava completamente desenvolvido no exército. Nunca chegou a dominar na totalidade da esfera do trabalho.
De modo que - embora historicamente a categoria mais simples possa ter existido antes da categoria mais concreta - ela só pode pertencer, no seu pleno desenvolvimento intensivo e extensivo, a uma forma de sociedade complexa, ao passo que a categoria mais concreta se encontrava mais desenvolvida numa forma de sociedade mais atrasada.
O trabalho parece ser uma categoria muito simples; e a idéia de trabalho nesse sentido - isto é trabalho, sem mais - é muito antiga. No entanto, tomando esta sua simplicidade do ponto de vista econômico, o "trabalho" é uma categoria tão moderna como as relações que originam esta mesma abstração simples. O monetarismo, por exemplo - de forma perfeitamente objetiva situava ainda a riqueza no dinheiro, considerando-a como algo de exterior. Relativamente a isto, operou-se um grande progresso quando o sistema manufatureiro ou comercial passou a situar a fonte de riqueza, não no objeto, mas na atividade subjetiva - o trabalho, manufatureiro ou comercial - embora continuasse a conceber esta atividade apenas como atividade limitada produtora de dinheiro. Com relação a este sistema, o dos fisiocratas [realiza novo progresso e] situa a fonte de riqueza numa forma determinada de trabalho - o trabalho agrícola; além disso, concebia o objeto não como a forma exterior do dinheiro, mas como produto enquanto tal, como resultado geral do trabalho. Mesmo assim, dado o caráter limitado da atividade, este produto continua a ser um produto determinado da natureza, quer dizer, um produto agrícola, produto da terra par excellence, Progrediu-se imenso quando Adam Smith rejeitou toda e qualquer especificação acerca das formas particulares da atividade criadora de riqueza, considerando-a como trabalho puro e simples, isto é, nem trabalho manufatureiro, nem trabalho comercial, nem trabalho agrícola, mas qualquer deles, indiferentemente; a esta universalidade da atividade criadora de riqueza corresponde a universalidade do objeto enquanto riqueza -produto em geral, quer dizer trabalho em geral, embora [neste caso] se trate de trabalho passado, objetivado. A dificuldade e a importância desta transição para a nova concepção, está patente no fato de o próprio Adam Smith, aqui e ali, pender para o sistema fisiocrático.
Poderia agora parecer que se encontrou muito simplesmente a expressão abstrata da mais antiga e mais simples relação que, na sua qualidade de produtores, os homens estabeleceram entre si - e isto independentemente da forma da sociedade. Isto é verdadeiro num sentido, e falso noutro. Com efeito, a indiferença em relação a toda a forma particular de trabalho supõe a existência de um conjunto muito diversificado de gêneros reais de trabalho, nenhum dos quais predomina sobre os outros. Assim as abstrações mais gerais apenas podem surgir quando surge o desenvolvimento mais rico do concreto, quando um elemento aparece como o que é comum a muitos, como comum a todos. Então, já não pode ser pensado unicamente como forma particular. Por outro lado, esta abstração do trabalho em geral não é apenas o resultado intelectual de um todo concreto de trabalhos: a indiferença em relação a uma forma determinada de trabalho corresponde a uma forma de sociedade na qual os indivíduos podem passar facilmente de um trabalho para outro, sendo para eles fortuito - e portanto indiferente - o gênero determinado do trabalho. Nestas condições, o trabalho transformou-se - não só como categoria, mas na própria realidade - num meio de produzir riqueza em geral e, como determinação já não está adstrito ao individuo como sua particularidade. Este estado de coisas atingiu o seu maior desenvolvimento na forma mais moderna das sociedades burguesas - os Estados Unidos; consequentemente, só nos Estados Unidos a categoria abstrata "trabalho", "trabalho em geral", trabalho sans phrase - ponto de partida da economia moderna - se tornou uma verdade prática. Deste modo, a abstração mais simples - que a economia moderna põe em primeiro plano, como expressão de uma relação antiquíssima e válida para todas as formas de sociedade - só vem a aparecer como verdade prática- e com este grau de abstração - enquanto categoria da sociedade moderna.
Poder-se-ia dizer que a indiferença em relação a toda a forma determinada de trabalho, que nos Estados Unidos é um produto histórico, se manifesta entre os russos, por exemplo, como uma disposição natural. Contudo, há uma diferença considerável entre bárbaros aptos para qualquer trabalho e civilizados que por si próprios se dedicam a tudo; além disso, esta indiferença em relação a qualquer forma determinada de trabalho corresponde na prática, entre os russos, à sua sujeição tradicional a um trabalho bem determinado, a que só podem arrancá-los influências exteriores. Este exemplo do trabalho mostra com clareza que as categorias mais abstratas, embora sejam válidas para todas as épocas (devido à sua natureza abstrata, precisamente), são também - no que a sua abstração tem de determinado - o produto de condições históricas e só são plenamente válidas para estas condições e dentro dos seus limites.
A sociedade burguesa é a mais complexa e desenvolvida organização histórica da produção. As categorias que exprimem as relações desta sociedade, e que permitem compreender a sua estrutura, permitem-nos ao mesmo tempo entender a estrutura e as relações de produção das sociedades desaparecidas, sobre cujas ruínas e elementos ela se ergueu, cujos vestígios ainda não superados continua a arrastar consigo, ao mesmo tempo que desenvolve em si a significação plena de alguns indícios prévios, etc. A anatomia do homem dá-nos uma chave para compreender a anatomia do macaco. Por outro lado as virtualidades que anunciam uma forma superior nas espécies animais inferiores só pode ser compreendidas quando a própria forma superior é já conhecida. Do mesmo modo, a economia burguesa dá-nos a chave da economia da Antiguidade, etc., - embora nunca à maneira dos economistas, que suprimem todas as diferenças históricas e vêm a forma burguesa em todas as formas de sociedade. Podemos compreender o tributo, a dízima, etc., quando conhecemos a renda fundiária; mas não há razão para identificar uns com a outra. Além disso, como a sociedade burguesa não é em si mais do que uma forma antagônica do desenvolvimento histórico, certas relações pertencentes a sociedades anteriores só aparecem nesta sociedade de maneira atrofiada, ou mesmo disfarçada. Por exemplo, a propriedade comunal.Por conseguinte, sendo embora verdade que as categorias da economia burguesa são até certo ponto válidas para todas as outras formas de sociedade, tal deve ser admitido cum grano salis; podem conter essas formas de um modo desenvolvido, ou atrofiado, ou caricaturado, etc.; porém, existirá sempre uma diferença essencial. A invocação da chamada evolução histórica repousa geralmente no fato de que a última forma de sociedade considera as outras como simples etapas que a ela conduzem e, dado que só em raras ocasiões, só em condições bem determinadas, é capaz de fazer a sua própria crítica - não falamos, claro, dos períodos históricos que se consideram a si próprios como uma época de decadência - concebe sempre essas etapas de um modo unilateral. A religião cristã só pode contribuir para que se compreendessem de um modo objetivo as mitologias anteriores, quando se prontificou até certo ponto, por assim dizer virtualmente, a fazer a sua própria auto-crítica. Do msmo modo, a economia burguesa só ascendeu à compreensão das sociedades feudal, clássica e oriental, quando começou a criticar-se a si própria. A crítica a que a economia burguesa submeteu as sociedades anteriores - especialmente o feudalismo, contra o qual a burguesia teve de lutar diretamente - assemelha-se à critica do paganismo pelo cristianismo, ou até à do catolicismo pelo protestantismo - isto quando não se identificou pura e simplesmente com o passado, fabricando a sua própria mitologia.
Como, em geral, em toda a ciência histórica, social, ao observar o desenvolvimento das categorias econômicas há que ter sempre presente que o sujeito - neste caso a sociedade burguesa moderna - é algo dado tanto na realidade como na mente; e que, por conseguinte, essas categorias exprimem formas e modos de existência, amiudadamente simples aspectos desta sociedade, deste sujeito; e que, portanto, mesmo do ponto de vista científico, esta sociedade não começa a existir de maneira nenhuma apenas a partir do momento em que se começa a falar dela como tal. uma regra a fixar, pois dá-nos elementos decisivos para o [nosso] plano [de estudo]. Por exemplo, parecia naturalíssimo começar [a nossa análise] pela renda imobiliária, pela propriedade agrária, pois estão ligadas à terra, fonte de toda a produção e de toda a existência, e também àquela que foi a primeira forma de produção de todas as sociedades mais ou menos estabilizadas - a agricultura; ora, nada seria mais errado do que isto; em todas as formações sociais, existe uma produção determinada que estabelece os limites e a importância de todas as outras e cujas relações determinam, portanto, os limites e importância das outras todas. E a iluminação geral que banha todas as cores e modifica as suas tonalidades particulares. como um éter particular que determina o peso específico de todas as formas de existência que nele se salientam.
Consideremos por exemplo os povos de pastores (os povos de simples caçadores e scadores não atingiram ainda o ponto em que começa o verdadeiro desenvolvimento>. Encontramos nestes povos uma forma esporádica de agricultura. Desse modo se determina a propriedade agrária. Esta propriedade é comum e conserva mais ou menos esta forma, consoante estes povos estão mais ou menos ligados às suas tradições: é o caso da propriedade comunal entre os Eslavos.
Nos povos que praticam a agricultura sedentária - e a sedentarização é já um progresso importante - e em que predomina essa atividade, como na Antiguidade e na sociedade feudal, a própria indústria, bem como a sua organização e as formas de propriedade que lhe correspondem, reveste-se - em maior ou menor grau -do caráter da propriedade agrária; a indústria, ou depende completamente da agricultura, como na Roma Antiga ou reproduz, na cidade, a organização e as relações do campo, como na Idade Média; o próprio capital - à exceção do puro e simples capital monetário - reveste-se na Idade Média, na forma de instrumentos de trabalho artesanal, etc., desse caráter de propriedade agrária. Na sociedade burguesa sucede o contrário: a agricultura transforma-se cada vez mais num simples ramo industrial, e é completamente dominada pelo capital. O mesmo se passa com a renda agrária. Em todas as formas de sociedade em que domina a propriedade agrária, a relação com a natureza é ainda preponderante. Em contrapartida, naqueles em que domina o capital, são [preponderantes] os elementos socialmente, historicamente criados. Não se pode compreender a renda imobiliária sem o capital, mas pode-se compreender o capital sem a renda imobiliária. O capital é a potência econômica da sociedade burguesa, potência que domina tudo; constitui necessariamente o ponto de partida e o ponto de chegada, e deve, portanto, ser analisado antes da propriedade agrária; uma vez analisado cada um em particular devem ser estudadas as suas relações recíprocas.
Por conseguinte, seria impraticável e errado apresentar a sucessão das categorias econômicas pela ordem que foram historicamente determinantes; a sua ordem, pelo contrário, é determinada pelas relações que mantêm entre si na moderna sociedade burguesa, ordem essa que é exatamente a inversa da que parece ser a sua ordem natural ou a do seu desenvolvimento histórico. Não está em causa a posição que as relações econômicas ocupam historicamente na sucessão das diferentes formas de sociedade; nem tampouco a sua ordem de sucessão "na idéia" (Proudhon), (uma representação nebulosa do movimento histórico). O que nos interessa é a sua estruturação no interior da moderna sociedade burguesa.
Os povos comerciantes - Fenícios, Cartagineses -surgiram em toda a sua pureza no mundo antigo; esta pureza (caráter determinado abstrato) deve-se precisamente à própria predominância dos povos agricultores; o capital, comercial ou monetário, aparece justamente sob esta forma abstrata sempre que o capital não é ainda o elemento dominante das sociedades. Lombardos e Judeus ocupam uma posição semelhante relativamente às sociedades medievais que praticam a agricultura.
Outro exemplo [ilustrativo] das posições diferentes que as mesmas categorias ocupam em diferentes estágios da sociedade: as sociedades por ações (joint - stock - companies), uma das mais recentes instituições da sociedade burguesa, apareciam já no dealbar da era burguesa, nas grandes companhias mercantis que gozavam de privilégios e monopólios.
O próprio conceito da riqueza nacional insinua-se nos economistas do século XVII - e subsiste em parte nos do século XVIII - sob um aspecto tal que a riqueza aparece como criada exclusivamente para o Estado, cujo poder é proporcional a essa riqueza. Esta era uma forma, ainda inconscientemente hipócrita, sob a qual se anunciava a riqueza e a sua produção como o objetivo dos Estados modernos, considerados unicamente como meios de produzir riqueza.
Estabelecer claramente a divisão [dos nossos estudos] de maneira tal que [se tratem]:
1) As determinações abstratas gerais mais ou menos válidas para todas as formas de sociedade, mas no sentido atrás exposto.
2) As categorias que constituem a estrutura interna da sociedade burguesa, sobre as quais repousam as classes fundamentais. O capital, o trabalho assalariado, a propriedade agrária; as suas relações recíprocas. A cidade e o campo. As três grandes classes sociais; a troca entre estas. A circulação. O crédito (privado).
3) Síntese da sociedade burguesa, sob a forma de Estado, considerada em relação consigo própria. As classes "improdutivas". Os impostos. A dívida pública. O crédito público. A população. As colônias. A emigração.
4) As relações internacionais da produção. A divisão internacional. A exportação e a importação. Os câmbios.
5) O mercado mundial e as crises.
Balanço sobre o I Congresso da Conlutas
Apesar de ter algumas críticas à esse balanço que não vai muito além da disputa de quem é mais esquerda do que quem, secundarizando a luta contra o governo, na análise de conjuntura da América Latina e etc e por uma nova lógica no movimento da classe trabalhadora, é o balanço mais coerente que vi. Boa leitura!!
retirado do site: www.ler-qi.org
quinta-feira 17 de julho de 2008
DECLARAÇÃO
Balanço do I Congresso da Conlutas
A Coordenação Nacional de Lutas surgiu em 2004 com o objetivo de se apresentar como alternativa para os trabalhadores frente à burocracia da CUT e depois votou incorporar setores da juventude e do movimento popular. Esse novo agrupamento de vanguarda antigovernista foi produto do processo de lutas contra o ataque do governo Lula à previdência social.
Desde o começo, nós da LER-QI, dedicamos nossas pequenas forças para fazer propostas que apontassem no sentido de avançar como uma organização política de vanguarda e uma coordenadora real das lutas, propondo programa, estratégia e táticas com o objetivo de transformá-la num pólo cada vez mais forte de combate à burocracia sindical, à patronal e ao governo, se ligando aos batalhões mais estratégicos da classe operária, da indústria e dos serviços, e aos setores mais explorados como os precarizados, terceirizados, os negros, as mulheres e a juventude trabalhadora.
Depois de 4 anos de existência, a Conlutas realizou o seu I Congresso em Betim, de 3 a 6 de julho. O PSTU chegou a propagandear que haveria 8 mil delegados, mas infelizmente foram 2805 delegados credenciados [1], o que não supera sequer o que a Conlutas reuniu há dois anos no CONAT. Não foi casual que o Congresso sequer apareceu em nenhum lugar na mídia. Mas a questão numérica e a presença muito minoritária de delegações dos principais batalhões da classe operária poderia ser compensada pelo conteúdo do Congresso. Porém, a verdade é que cada vez mais pesa sobre os ombros dos trabalhadores que estão dedicando sua energia à construção da Conlutas a política da direção majoritária, o PSTU, que está levando a um retrocesso político e organizativo.
Nesse sentido, queremos explicar aos trabalhadores e jovens presentes que puderam ver nossa batalha política junto ao Sintusp e àqueles que acompanham a dinâmica da Conlutas, porque consideramos que foi mais uma oportunidade perdida e por que é urgente tirar lições profundas que sejam capazes de reorientar a Conlutas. Não vamos discutir todas as questões que se apresentaram, mas as que consideramos mais importantes.
Um ponto que precede: a luta dos trabalhadores da REVAP
No momento em que soltamos esse balanço, os combativos trabalhadores da REVAP estão mais uma vez em luta, dessa vez diretamente política contra a demissão da comissão de trabalhadores que organizou a recente greve [2]. Os trabalhadores responderam à altura com greve e ocupação da refinaria, o que a patronal e o governo responderam com uma repressão policial sanguinária, centenas de demissões por "justa causa" e tirando os ônibus de locomoção dos terceirizados para a refinaria, permitindo a entrada somente dos efetivos.
Não queremos entrar aqui na discussão de todo o processo de luta, mas colocar em primeiro lugar a necessidade de cercar de solidariedade ativa urgentemente, pois se trata de uma tentativa de impor uma derrota histórica aos trabalhadores da REVAP que vem mostrando disposição de resistir, mas precisam de amplo apoio.
Além disso, queremos partir da luta da REVAP, porque expressa de maneira contundente e trágica uma das principais debilidades do Congresso da Conlutas e os limites estreitos dos cantos incessantes de vitórias propagados pelo PSTU, reproduzindo os métodos do petismo e do cutismo que consideram vitorioso todos os movimentos, só por terem existido. Mesmo que seja uma derrota contundente.
Qualquer um dos presentes no Congresso não pode negar que essa luta teve muito pouco peso nas discussões e que o Congresso não cumpriu um papel elementar: coordenar as lutas e as campanhas de solidariedade. Pior ainda é seguir com esse erro com tamanho perigo para os trabalhadores da REVAP. Temos dedicado todas as nossas pequenas forças para apoiar essa luta. Exigimos do PSTU que mude já o rumo e coloque todo seu peso a serviço da luta, impulsionando desde já uma campanha séria [3].
Para as eleições da APEOESP em São Paulo o PSTU mobilizou toda sua militância, seguindo a sua tradição de organizar até mesmo viagens de militantes para outros estados para diversas eleições. Porém, mais uma vez, quando se dá um processo de luta exemplar, não se vê a militância do PSTU dando nenhum peso, o que é responsabilidade em primeiro lugar de sua direção. Por que colocar seu peso militante somente para as eleições e não para as lutas reais dos trabalhadores?
Pior ainda, vemos os trabalhadores da REVAP serem brutalmente reprimidos pela polícia, justamente essa que foi tão defendida no Congresso da Conlutas, com os militantes do PSTU e do PSOL transformando-os não somente em "trabalhadores da segurança", mas em aliados desde já da revolução socialista! Mas os trabalhadores da REVAP não os consideram seus aliados. Pior ainda, tiveram que enfrenta-los a pedradas! Em que barricada se coloca o PSTU?
Infelizmente, nossa discussão sobre a polícia recebe agora a triste luz do enfrentamento entre os terceirizados combativos da REVAP e os "trabalhadores da segurança". Só se pode entender que o PSTU iguale o risco de vida que os trabalhadores estavam sofrendo com o massacre policial com o da própria polícia [4] quem tem acompanhado o curso cada vez mais grave do PSTU em apoio aos policiais.
A expressão mais absurda do pouco peso que se dá às lutas reais na Conlutas e o caráter eleitoreiro que impõe a direção do PSTU, foi a mesa de abertura do seu I Congresso composta pelas figuronas do PSOL, mas não pelos poucos trabalhadores da REVAP que ali estavam presentes, que deveriam ser o centro do Congresso junto aos trabalhadores dos correios que seguem em greve por fora da data-base e se enfrentando com a burocracia sindical, da GM que derrotaram o banco de horas, mas assinaram um acordo que aceita as horas extras e a precarização dos salários, os professores de São Paulo que estavam em greve, outras categorias em luta, assim como Didi, que o PSTU diz estar fazendo uma campanha (fantasma) contra sua demissão política, mas sequer se dirigiu aos delegados do Congresso a não ser para questões organizativas.
Em que conjuntura se deu o congresso?
A conjuntura é marcada por altos índices de popularidade do governo Lula, que ainda consegue se apoiar no crescimento econômico que se mantém e na burocracia sindical que controla o movimento de massas. Isso apesar dos elementos de crise do regime que seguem presentes, com sucessivos escândalos de corrupção e crise de legitimidade das instituições, e de crise do Estado, que não consegue dar uma saída ao problema da miséria social e dos pobres urbanos, o que gera conflitos sociais e um desgaste cada vez maior das forças de repressão como a polícia e o exército que ao contrário de resolverem o problema, o aprofundam.
Além disso, o aumento absurdo da inflação, um primeiro sintoma profundo da crise econômica internacional, vem abalando o discurso dos "fundamentos sólidos" da economia nacional, doendo no bolso da massa dos trabalhadores e sendo um motor de processos importantes de luta no movimento operário. É que, além da inflação, esses anos de crescimento econômico não geraram mais do que empregos precários e segue o desemprego massivo. Os aumentos salariais que houve foram miseráveis e vem sendo corroídos pela inflação. Essa é uma das bases profundas que faz com que o movimento operário venha entrando em cena, em especial os setores mais precarizados.
Passado e presente da luta contra a burocracia sindical da CUT A poucos meses do surgimento da Conlutas, o PSTU lançou a política de ruptura com a CUT, que nós alertávamos que era ultra-esquerdista na forma e oportunista no conteúdo, porque se dava num marco meramente organizativo que confundia direção e base da CUT e não numa ruptura com o modo petista e cutista de militar e o programa e que lhe correspondia. Para isso, seria necessário fazer um balanço profundo de toda sua trajetória anterior, que como temos buscado analisar na elaboração de nossas teses sobre o último ascenso operário, foi marcada pela adaptação à burocracia lulista.
O que mostra como a ruptura organizativa com a CUT não quer dizer uma ruptura política é, por um lado, o fato de que até mesmo o PCdoB rompeu com a CUT, e por outro, o fato de que após romper com a CUT, o PSTU ainda continuava fazendo parte das "chapas cutistas" que construiu junto com a Articulação em diversos sindicatos rebaixando o programa sem denunciar o governo e a burocracia da CUT. Ou seja, não travava um combate programático contra esses burocratas com os quais um dia resolveu romper.
Porém, o que a beira do Congresso mostra como estávamos corretos foi a formação de chapas do PSTU, em nome da Conlutas, com setores "em crise" da CUT no CPERS no RS e nos bancários de SP. Como colocamos no Congresso, não somos contra a frente única com outras centrais em defesa dos interesses dos trabalhadores, mas sim em chapas sindicais que abandonam o combate frontal ao governo, que foi o que ocorreu em ambos os casos. Não foi à toa que no próprio Congresso se expressou a crise de setores independentes combativos que participaram da chapa no RS.
Esses zig-zags que impõe a direção do PSTU a Conlutas – sectários (ultra esquerdistas) no que diz respeito a ter uma política para desmascarar a direção da CUT de unidade de ação e enfrentamento para a luta; e oportunistas para fazer chapas eleitorais rebaixando os programas quando a chave são as definições políticas e programáticas - deixam desarmados os trabalhadores da Conlutas frente a um cenário onde esses são os grandes responsáveis pelo controle do movimento de massas.
Que papel o Congresso da Conlutas deveria cumprir?
Frente a esse cenário, a Conlutas, apesar de minoritária, tem um importante papel a cumprir para aglutinar os setores de vanguarda. Isso apesar de que refluiu o processo de lutas no funcionalismo público que foi a base do surgimento da Conlutas, o governo segue com alta popularidade e a burocracia sindical segue com um grande controle sobre o movimento operário.
Em primeiro lugar, havia processos importantes de luta em meio ao Congresso que poderiam transformá-lo em um marco de coordenação. Além disso, apesar da Conlutas não ser de massas, estava colocada uma grande oportunidade para armá-la com um programa capaz de tirá-la do isolamento e começar a transformá-la numa referência sindical e política para setores mais amplos dos trabalhadores e do povo oprimido se levantasse uma política efetiva para esses problemas que são sentidos pelas massas como a inflação, a violência policial e a corrupção.
Abrindo as portas para o PSOL e para o chavismo
Um dos principais pontos debatidos no Congresso foi à posição em relação a Chávez e os governos burgueses da América Latina. A maioria dos companheiros que se expressaram sobre esse ponto, começando por Valério Arcary na abertura do Congresso, falaram contra Chávez denunciando seu caráter burguês, denunciando a repressão aos operários siderúrgicos da Sidor, que Chávez continua pagando a divida externa e alimentando a maquinaria de guerra dos EUA com o petróleo da Venezuela e que suas "nacionalizações" não são mais do que sociedades mistas com o empresariado local e o imperialismo.
Mas apesar desse importante debate, para não fechar as portas para os acordos eleitorais com PSOL, o PSTU se recusou a votar uma clara resolução contra Chávez e os governos burgueses da América Latina. Ao se abster dessa forma, o PSTU abriu mão da luta pela independência política dos trabalhadores, que deveria se expressar num combate a influencia do chavismo sobre o movimento de massa latino-americano. A resolução aprovada, de que a Conlutas não deve se posicionar, não só deixa as portas abertas ao PSOL (que insiste em não entrar apesar da insistência de anos do PSTU), como também deixa as portas abertas para os próprios chavistas e a conciliação de classes.
Na questão das eleições também se mostrou que um espectro ronda a Conlutas: o espectro do PSOL. Ao contrário de defender suas posições claramente perante o Congresso da Conlutas, o PSTU votou duas resoluções contraditórias. Para se cobrir "pela esquerda" aceitou a formulação proposta pelo Sintusp de "nenhum apoio a partidos burgueses ou partidos de esquerda que praticam a conciliação de classes", mas ao mesmo tempo votou que o Congresso não deveria se posicionar sobre a Frente de Esquerda. Pois essa Frente seria indefensável, já que é difícil explicar como um partido de "esquerda" como o PSOL que aprovou o super-simples e que tem uma direção que apóia alianças com partidos burgueses não defende a conciliação de classes.
Contra a política de adaptação ao PSOL nas eleições, que subordina a Conlutas a uma política de conciliação de classes, levamos ao Congresso uma proposta clara, que propunha a ruptura com a Frente de Esquerda e que chamava o PSTU a se apoiar na Conlutas para impulsionar uma verdadeira frente classista nas eleições, com um programa votado pelos trabalhadores e para o apoio às lutas em curso chegar a milhões de trabalhadores em todo o país.
A resolução de unidade com a Intersindical, assim como a resolução sobre eleições, deixa a direção do PSTU com as mãos livres para fazer todo tipo de acordo com o PSOL, rebaixando ainda mais o programa votado pelo Congresso da Conlutas. Contra esse tipo de unidade pelo alto, tão comum na prática petista, que sempre leva o setor mais radicalizado dos trabalhadores a abandonar a sua política para "não romper a unidade", defendemos que a única unidade correta com a Intersindical deve ser imposta a partir da luta pela unidade da própria classe, que está divida em efetivos e terceirizados, em trabalhadores bem pagos e precarizados e da luta para unificar nas lutas reais e não nos discursos. A unidade com a Intersindical não se dará em negociações de dirigentes, como demonstrou cabalmente a ruptura do MTL, mas deve ser imposta pela base, em cada sindicato e em cada categoria.
Fora a Policia da Conlutas!
A defesa entusiasmada feita pelo PSTU da presença de sindicatos e associações de policiais na Conlutas, inclusive a possibilidade de participarem da sua direção, é uma ruptura com o princípio de independência de classe e uma adaptação ao regime e ao Estado burguês. Na situação em que uma nova geração de trabalhadores e jovens surge para a vida política a partir da ruptura com o petismo, e que as políticas repressivas da burguesia contra o povo pobre das grandes cidades e do campo se aprofunda, o PSTU cumpriu um grande desfavor a causa dos trabalhadores.
Confundindo a posição dos revolucionários frente ao exército e a policia, defendendo abertamente que o policial é um trabalhador como outro qualquer, escondendo que a alta hierarquia da PM também participa das greves por maiores salários e melhores condições de "trabalho", o PSTU está educando toda a nova geração a confiar nos policiais e ver o policial como o setor social que pode assegurar a vitória da revolução. Isso é um abandono das posições revolucionárias que ensinam os trabalhadores a confiar só nas suas próprias forças, que ensinam que o único ponto sólido onde uma revolução pode se apoiar é no armamento das massas, que ensinam que sem armar o movimento operário é puro propagandismo falar em "rachar" o exército.
Com a sua resolução o PSTU poupa aos repressores o trabalho de enviar agentes infiltrados para as nossas reuniões, já que recebe de portas abertas os policiais. Isso é uma grave ameaça ao caráter independente da Conlutas e pode ameaçar também a própria segurança física dos integrantes da coordenação.
Chamamos todos os companheiros que repudiam a presença de policias na Conlutas, para se somarem a nós na luta que continuaremos travando contra essa política escandalosa. Fora à polícia da Conlutas!
É necessário romper com o legalismo e a estrutura sindical varguista
O PSTU defendeu e aprovou legalizar imediatamente a Conlutas como central sindical na nova lei aprovada pelo governo Lula. O principal argumento utilizado foi que legalizando a Conlutas ficará mais fácil conseguir a representação de novas categorias de trabalhadores nas negociações com a patronal.
Mas a lei aprovada pelo governo Lula tem como objetivo atrelar ainda mais os sindicatos e as centrais sindicais ao governo, coroando assim toda a estrutura legal que regula a forma como devem se organizar os trabalhadores, através da estrutura das datas-base e do papel disciplinador cumprido pela justiça do trabalho. Legalizar já a Conlutas significa abrir mão da luta contra a reforma sindical e se adaptar ao legalismo que hoje subordina as lutas operárias às regras impostas pela burguesia.
A única posição correta seria rechaçar essa lei e denunciar as reais intenções de Lula e do PT, considerando inclusive que a CUT nunca foi legalizada e que isso nunca impediu que fosse reconhecida pela patronal e pelo Estado nas negociações salariais. A luta contra a reforma sindical de Lula é apenas parte da luta contra toda a estrutura sindical vigente, desde os tempos do governo Vargas, que busca disciplinar o movimento operário. Uma das tarefas urgentes da Conlutas é avançar na ruptura com esse legalismo que predomina no sindicalismo brasileiro. A forma como a Conlutas vai garantir sua representatividade não vai ser através da sua legalização e sim do seu reconhecimento pela base dos trabalhadores em cada local de trabalho.
Uma resolução que exclui as oposições sindicais da Conlutas
A subordinação à estrutura sindical vigente que se expressou na defesa enérgica que o PSTU fez da legalização da Conlutas, se expressou ainda com mais força na resolução proibitiva que foi aprovada em relação às oposições sindicais. A partir deste Congresso só terão representação na Conlutas as oposições que já tiverem participado de eleições ou que tenham representação legal. Isso significa, por exemplo, que os operários da Revap (e a grande maioria dos setores terceirizados) não terão voto nas reuniões da Conlutas, pois nunca participaram de eleições sindicais. Também não poderão participar da Conlutas, com voz e voto, os companheiros que organizam oposições clandestinas e que se enfrentam diretamente com a repressão das patronais e da burocracia governista.
Chamamos os companheiros do PSTU a rever essa posição, que repete a prática política aplicada por Lula e pelas direções sindicais "autenticas" do ABC nas greves de 78-80. Nesse momento dezenas de milhares de metalúrgicos de São Paulo iam à greve organizados e dirigidos pela Oposição Metalúrgica, mas os sindicalistas do ABC aceitavam organizar uma Intersincal com a presença dos pelegos que dirigiam o sindicato, com Joaquinzão à frente, mas não aceitavam a Oposição.
O que significa concretamente a "estratégia socialista" para o PSTU?
O PSTU deu peso na defesa da estratégia socialista para a Conlutas. Nós não podemos mais do que concordar que os sindicatos da Conlutas devem ter essa perspectiva. Porém, é necessário um debate sobre qual é o conteúdo concreto dessa questão [5].
Em primeiro lugar, o que nós trabalhadores devemos entender por estratégia socialista? Para nós, a estratégia socialista significa que não basta que os trabalhadores se organizem somente para a luta econômica isoladamente em cada categoria, que é necessário não somente avançar na unidade das fileiras operárias para combater nossos inimigos de classe com um só punho não somente nas lutas econômicas, mas também se elevar à luta política, preparando os trabalhadores para arrancar o poder da burguesia e seu Estado, baseado nas organizações de auto-organização das massas, com um partido revolucionário à frente.
Adotar essa estratégia, significa em primeiro lugar não se adaptar ao sindicalismo e ao eleitoralismo. Ou seja, não transformar as táticas de participar das lutas e das eleições em estratégia, o que na verdade acaba deslizando no sentido de outra estratégia, que podemos chamar "estratégia de desgaste" [
6]. Infelizmente, não é isso que se vê na prática do PSTU, que leva essa influência à Conlutas.
Mas também não podemos aceitar que se fale de estratégia socialista, fazendo discursos vermelhos, mas não se cumpre com o classismo mais elementar que é o de cercar de solidariedade as lutas dos trabalhadores como a da REVAP.
Por isso, fazemos um chamado a ser conseqüente quando se fala de "estratégia socialista".
Cotas bastam para lutar contra o racismo e a opressão das mulheres?
Para nós da LER-QI e para os trabalhadores que atuaram conosco nesse Congresso a defesa das mulheres e do povo negro são duas questões estratégicas na luta dos trabalhadores. São as mulheres e os negros os que em sua maioria engrossam as fileiras dos setores mais explorados da classe, que foram os mais atacados com a ofensiva neoliberal, que ocupam os piores empregos e recebem os menores salários. São esses setores justamente os primeiros estão indo à luta contra o rebaixamento salarial provocado pela inflação. No entanto, as duas principais resoluções a respeito foram cotas para as mulheres na direção dos sindicatos e cota para os negros na universidade. A questão da cota para mulheres nos sindicatos é uma questão tática e atinge uma ínfima minoria das trabalhadoras sindicalizadas e militantes. As questões fundamentais para a grande maioria não foram abordadas, pois não se discutiu como combater a reacionária campanha da Igreja Católica e de Heloisa Helena e como defender as milhares de mulheres do Mato Grosso do Sul e Limeira que estão sendo criminalizadas por terem feito abortos. Nem se discutiu como organizar a luta para igualar os salários entre homens e mulheres e como lutar por creches públicas. Para o movimento negro, a direção do PSTU reservou somente a organização das atividades culturais e o lançamento de um "novo movimento negro" a partir do "Quilombo" montado no Congresso. Infelizmente, na Plenária Final que votou as resoluções, o movimento negro pouco se expressou e não se discutiu que programa que os sindicatos da Conlutas devem levantar em defesa dos trabalhadores negros e do conjunto do povo negro. A única questão discutida foi a luta por cotas nas universidades, uma demanda que, se defendida por fora de uma programa de conjunto, é facilmente utilizada por setores burgueses e governistas para cooptar parcelas importantes do movimento negro.
Cerceamento do debate na Plenária Final
A conseqüência de uma orientação que deixa as portas abertas à conciliação de classes, à burocratização dos sindicatos e que abandona o combate à reforma sindical, é que mesmo o PSTU tendo a maioria do Congresso ao seu lado, não pode deixar o debate correr livremente na Plenária Final.
A direção do PSTU utilizou basicamente dois métodos para cercear o debate. Em primeiro lugar, usando o argumento da falta de tempo, aprovou uma resolução que garantia o poder da "comissão de sistematização" (totalmente controlada pelo PSTU) de decidir o que iria à votação e o que não iria. A discussão sobre Cuba, por exemplo, onde o PSTU mantém uma posição vergonhosa de não mais defender as conquistas da revolução que ainda restam, o que o leva a ter unidade na política pratica com os "gusanos" (como são chamados os capitalistas cubanos que vivem em Miami, nos EUA), não foi discutida em plenário. Como o PSTU queria evitar essa discussão, ela foi colocada por último na sistematização e consequentemente não foi à votação, assim como muitas outras resoluções aprovadas nos grupos de discussão.
A outra forma principal foi a prática dos amálgamas, que o PSTU utilizou para distorcer as propostas das minorias. Assim, muitas propostas independentes apareciam como adendos nas teses da maioria, mesmo que fossem opostas pelo vértice com outros pontos defendidos na mesma resolução pela maioria. Ou então, também juntava todas as propostas das minorias numa única defesa, reduzindo seu tempo de fala e apagando suas diferenças, muitas vezes fundamentais. O PSTU com esse tipo de pratica não faz mais do que demonstrar a sua fragilidade como partido e a pouca qualidade da discussão que faz com seus simpatizantes. E pior, também vai educando toda uma geração de trabalhadores e estudantes numa prática burocrática, oposta às melhores tradições do movimento operário.
A "ultra" funcional à política do PSTU
A política da LBI e outros grupos sectários, apesar da verborragia de esquerda, é muito conveniente ao PSTU. Como suas posições expressam apenas a vontade dessas organizações e não as necessidades reais do movimento operário, facilitam o trabalho desse partido de desqualificar todas as minorias, e acabam sendo um entrave à luta real pela independência de classe. Não à toa a LBI não teve a palavra vetada uma só vez na plenária final, com o PSTU estimulando suas falas.
Suas políticas são tão absurdas e lunáticas, que apesar das críticas estridentes, a resultante final é um embelezamento do PSTU. Para rechaçar qualquer tipo de unidade com a Intersindical, "batalha" que quiseram transformar na "grande luta principista" (não é coincidência que era a mera oposição à política central do PSTU e não ligada às necessidades reais dos trabalhadores), a LBI faz uma defesa do papel da Conlutas que a exalta nas nuvens como se fosse a grande resolução dos problemas da humanidade, mesmo hoje, sobre a direção absolutamente majoritária do PSTU que eles tanto criticam. Ao defender que a Conlutas deve se transformar na "Cocep", um embrião de duplo poder (!) e organizar sozinha uma greve geral contra Lula, a LBI, sem se dar conta disso, acaba atribuindo ao próprio PSTU uma força que ele não tem e defendendo que seja o próprio PSTU a cumprir com essas tarefas. Tarefas tão revolucionárias no discurso, quanto afastadas da realidade.
Cumprir com as resoluções que apontam para a independência de classe
Essa prática dos amálgamas levou o Congresso da Conlutas a aprovar apenas formalmente algumas resoluções que os militantes do PSTU tinham combatido nos grupos de discussão e outras que não constavam nas teses apresentadas pela maioria.
Desse conjunto de resoluções aprovadas formalmente, três delas apresentadas inicialmente pelos trabalhadores da USP são de fundamental importância para as lutas dos trabalhadores contra a inflação, pela independência de classe e contra a burocratização dos sindicatos. São elas: organizar uma campanha salarial de emergência no segundo semestre, não se restringindo às categorias que já tem data-base marcada; organizar uma campanha em defesa dos trabalhadores terceirizados defendendo sua imediata incorporação como trabalhadores efetivos e defendendo a equiparação salarial – igual trabalho, igual salário; e a resolução de que todos os dirigentes sindicais liberados a mais de um mandato devem voltar ao trabalho. Já tivemos a experiência no CONAT de como o PSTU incorpora de forma oportunista algumas resoluções para evitar o debate e depois não as aplica na realidade, como aconteceu com a luta pelo salário mínimo do Dieese. Exigimos que o PSTU cumpra com as resoluções votadas! Se não o fazem novamente, estarão demonstrando claramente que não querem construir nenhuma coordenação real de lutas em base à democracia operária.
Construamos uma corrente verdadeiramente classista e anti-burocrática na Conlutas
A política que vem impondo para a Conlutas sua direção majoritária não diminui a importância da luta em seu seio por uma política conseqüente. Por isso, viemos dando essa batalha e chamamos a todos os que tenham acordo com as posições que aqui colocamos, ainda que seja uma parte delas, a dar uma batalha em comum por essa perspectiva, para que a Conlutas possa de fato cumprir o papel que lhe cabe e não retroceder ainda mais.
Saudamos os companheiros do Sintusp pela batalha política travada no Congresso e chamamos os trabalhadores e jovens a se juntarem a nós para aprofundar essa perspectiva de construir uma Conlutas classista.
[1] Inclusive, só estavam presentes a maioria dos delegados na plenária inicial e final, sendo que dos grupos de discussão participaram cerca de 1500 pessoas.
[2] Chamamos os leitores a acompanharem esse processo de luta nesse site. Leia nosso balanço da campanha salarial da REVAP no Jornal Palavra Operária nº42 e nossa declaração frente à brutal repressão que sofreram.
[3] Até agora, o PSTU tem sido irresponsável frente às demissões e a repressão. Por exemplo, a reunião marcada no domingo em São José dos Campos para organizar o ato de 2ª feira, para a qual deslocamos camaradas de nossa organização, sequer aconteceu. No ato de 2ª feira, quase não se via a militância do PSTU, que sequer superava em número a militância da LER-QI. Além disso, não organizou nenhum operativo alternativo ao boicote patronal aos ônibus para garantir um ato forte nem mesmo uma superestrutura que desse cobertura a essa luta. Na quarta-feira, mais uma vez, estivemos presentes ao ato que foi um completo fracasso e onde o PSTU não colocou nenhum peso.
[4] Na nota da Conlutas de SJC de 11/07, é dito: "...a direção da Petrobrás, em São José dos Campos, autorizou, de maneira totalmente irresponsável, a entrada da Tropa de Choque e da Força Tática para reprimir os trabalhadores das obras de expansão, que estão em greve. Essa atitude colocou em risco a vida dos trabalhadores, da comunidade que cerca a refinaria e dos próprios policiais. Um acidente gravíssimo poderia ter acontecido e milhares de pessoas poderiam ficar feridas e até ter morrido."
[5] Os companheiros do PSTU colocavam como um dos argumentos centrais para defender essa resolução o fato de que essa seria em si uma superação da CUT. É verdade é que a CUT nunca teve uma estratégia socialista, afinal, apesar de expressar a força do movimento operário, sempre foi controlada pelos burocratas da Articulação que são opostos a essa estratégia. Porém, o PSTU deveria explicar então porque somente em 95, depois de mais de 10 anos de CUT dizia no boletim "Uma primeira avaliação da plenária nacional da CUT", do MTS (Movimento por uma Tendência Socialista-CUT), tendência sindical criada pelo PSTU que "o setor majoritário da direção nossa central [...] tem abandonado o projeto classista, de luta e socialista da origem da CUT e abraçado as concepções de reforma do capitalismo da social-democracia".
[6] Isso somente para diferenciar a "estratégia socialista" da "estratégia de desgaste", sem entrar nas diferentes "estratégias socialistas" que existem na esquerda e na história do movimento operário. Para aprofundar nesse "debate das diferentes estratégias na esquerda", ver "debate de estratégias" no JPO 35. Nele, dizemos: "a Revolução Russa deu lugar à estratégia da tomada do poder pela classe operária e da ditadura do proletariado (...) outras grandes revoluções, como a Revolução Chinesa ou a Revolução Vietnamita, deram lugar a outras estratégias, a estratégia da guerra popular prolongada; e a análise da experiência da Revolução Cubana por Ernesto Guevara e Regis Debray deu origem à estratégia do foquismo (...) Frente a essas três estratégias que surgem das revoluções, está a formulação de Kautsky da "estratégia de desgaste", surgida da ausência de revolução, mediante a qual se transforma a tática de participar de eleições e de participar em sindicatos em estratégia. Há trinta anos que não há uma revolução no mundo; há levantamentos, como na Bolívia, como na Venezuela, como na Argentina em 2001, porém revoluções proletárias clássicas, e muito menos triunfantes, não há desde 25 ou 30 anos (...) a "estratégia de desgaste" diz que participando das eleições, ganhando sindicatos, participando em manifestações de massas, etc., vamos desgastando o poder do inimigo até chegar um momento em que possamos nos impor ao poder do inimigo (...) mas em termos gerais quem termina se desgastando é ele, a menos que isso esteja ligado a uma estratégia maior (...) aqueles que lutam taticamente e não concebem a tática subordinada à estratégia estão gerando arrivistas pequeno-burgueses."
retirado do site: www.ler-qi.org
quinta-feira 17 de julho de 2008
DECLARAÇÃO
Balanço do I Congresso da Conlutas
A Coordenação Nacional de Lutas surgiu em 2004 com o objetivo de se apresentar como alternativa para os trabalhadores frente à burocracia da CUT e depois votou incorporar setores da juventude e do movimento popular. Esse novo agrupamento de vanguarda antigovernista foi produto do processo de lutas contra o ataque do governo Lula à previdência social.
Desde o começo, nós da LER-QI, dedicamos nossas pequenas forças para fazer propostas que apontassem no sentido de avançar como uma organização política de vanguarda e uma coordenadora real das lutas, propondo programa, estratégia e táticas com o objetivo de transformá-la num pólo cada vez mais forte de combate à burocracia sindical, à patronal e ao governo, se ligando aos batalhões mais estratégicos da classe operária, da indústria e dos serviços, e aos setores mais explorados como os precarizados, terceirizados, os negros, as mulheres e a juventude trabalhadora.
Depois de 4 anos de existência, a Conlutas realizou o seu I Congresso em Betim, de 3 a 6 de julho. O PSTU chegou a propagandear que haveria 8 mil delegados, mas infelizmente foram 2805 delegados credenciados [1], o que não supera sequer o que a Conlutas reuniu há dois anos no CONAT. Não foi casual que o Congresso sequer apareceu em nenhum lugar na mídia. Mas a questão numérica e a presença muito minoritária de delegações dos principais batalhões da classe operária poderia ser compensada pelo conteúdo do Congresso. Porém, a verdade é que cada vez mais pesa sobre os ombros dos trabalhadores que estão dedicando sua energia à construção da Conlutas a política da direção majoritária, o PSTU, que está levando a um retrocesso político e organizativo.
Nesse sentido, queremos explicar aos trabalhadores e jovens presentes que puderam ver nossa batalha política junto ao Sintusp e àqueles que acompanham a dinâmica da Conlutas, porque consideramos que foi mais uma oportunidade perdida e por que é urgente tirar lições profundas que sejam capazes de reorientar a Conlutas. Não vamos discutir todas as questões que se apresentaram, mas as que consideramos mais importantes.
Um ponto que precede: a luta dos trabalhadores da REVAP
No momento em que soltamos esse balanço, os combativos trabalhadores da REVAP estão mais uma vez em luta, dessa vez diretamente política contra a demissão da comissão de trabalhadores que organizou a recente greve [2]. Os trabalhadores responderam à altura com greve e ocupação da refinaria, o que a patronal e o governo responderam com uma repressão policial sanguinária, centenas de demissões por "justa causa" e tirando os ônibus de locomoção dos terceirizados para a refinaria, permitindo a entrada somente dos efetivos.
Não queremos entrar aqui na discussão de todo o processo de luta, mas colocar em primeiro lugar a necessidade de cercar de solidariedade ativa urgentemente, pois se trata de uma tentativa de impor uma derrota histórica aos trabalhadores da REVAP que vem mostrando disposição de resistir, mas precisam de amplo apoio.
Além disso, queremos partir da luta da REVAP, porque expressa de maneira contundente e trágica uma das principais debilidades do Congresso da Conlutas e os limites estreitos dos cantos incessantes de vitórias propagados pelo PSTU, reproduzindo os métodos do petismo e do cutismo que consideram vitorioso todos os movimentos, só por terem existido. Mesmo que seja uma derrota contundente.
Qualquer um dos presentes no Congresso não pode negar que essa luta teve muito pouco peso nas discussões e que o Congresso não cumpriu um papel elementar: coordenar as lutas e as campanhas de solidariedade. Pior ainda é seguir com esse erro com tamanho perigo para os trabalhadores da REVAP. Temos dedicado todas as nossas pequenas forças para apoiar essa luta. Exigimos do PSTU que mude já o rumo e coloque todo seu peso a serviço da luta, impulsionando desde já uma campanha séria [3].
Para as eleições da APEOESP em São Paulo o PSTU mobilizou toda sua militância, seguindo a sua tradição de organizar até mesmo viagens de militantes para outros estados para diversas eleições. Porém, mais uma vez, quando se dá um processo de luta exemplar, não se vê a militância do PSTU dando nenhum peso, o que é responsabilidade em primeiro lugar de sua direção. Por que colocar seu peso militante somente para as eleições e não para as lutas reais dos trabalhadores?
Pior ainda, vemos os trabalhadores da REVAP serem brutalmente reprimidos pela polícia, justamente essa que foi tão defendida no Congresso da Conlutas, com os militantes do PSTU e do PSOL transformando-os não somente em "trabalhadores da segurança", mas em aliados desde já da revolução socialista! Mas os trabalhadores da REVAP não os consideram seus aliados. Pior ainda, tiveram que enfrenta-los a pedradas! Em que barricada se coloca o PSTU?
Infelizmente, nossa discussão sobre a polícia recebe agora a triste luz do enfrentamento entre os terceirizados combativos da REVAP e os "trabalhadores da segurança". Só se pode entender que o PSTU iguale o risco de vida que os trabalhadores estavam sofrendo com o massacre policial com o da própria polícia [4] quem tem acompanhado o curso cada vez mais grave do PSTU em apoio aos policiais.
A expressão mais absurda do pouco peso que se dá às lutas reais na Conlutas e o caráter eleitoreiro que impõe a direção do PSTU, foi a mesa de abertura do seu I Congresso composta pelas figuronas do PSOL, mas não pelos poucos trabalhadores da REVAP que ali estavam presentes, que deveriam ser o centro do Congresso junto aos trabalhadores dos correios que seguem em greve por fora da data-base e se enfrentando com a burocracia sindical, da GM que derrotaram o banco de horas, mas assinaram um acordo que aceita as horas extras e a precarização dos salários, os professores de São Paulo que estavam em greve, outras categorias em luta, assim como Didi, que o PSTU diz estar fazendo uma campanha (fantasma) contra sua demissão política, mas sequer se dirigiu aos delegados do Congresso a não ser para questões organizativas.
Em que conjuntura se deu o congresso?
A conjuntura é marcada por altos índices de popularidade do governo Lula, que ainda consegue se apoiar no crescimento econômico que se mantém e na burocracia sindical que controla o movimento de massas. Isso apesar dos elementos de crise do regime que seguem presentes, com sucessivos escândalos de corrupção e crise de legitimidade das instituições, e de crise do Estado, que não consegue dar uma saída ao problema da miséria social e dos pobres urbanos, o que gera conflitos sociais e um desgaste cada vez maior das forças de repressão como a polícia e o exército que ao contrário de resolverem o problema, o aprofundam.
Além disso, o aumento absurdo da inflação, um primeiro sintoma profundo da crise econômica internacional, vem abalando o discurso dos "fundamentos sólidos" da economia nacional, doendo no bolso da massa dos trabalhadores e sendo um motor de processos importantes de luta no movimento operário. É que, além da inflação, esses anos de crescimento econômico não geraram mais do que empregos precários e segue o desemprego massivo. Os aumentos salariais que houve foram miseráveis e vem sendo corroídos pela inflação. Essa é uma das bases profundas que faz com que o movimento operário venha entrando em cena, em especial os setores mais precarizados.
Passado e presente da luta contra a burocracia sindical da CUT A poucos meses do surgimento da Conlutas, o PSTU lançou a política de ruptura com a CUT, que nós alertávamos que era ultra-esquerdista na forma e oportunista no conteúdo, porque se dava num marco meramente organizativo que confundia direção e base da CUT e não numa ruptura com o modo petista e cutista de militar e o programa e que lhe correspondia. Para isso, seria necessário fazer um balanço profundo de toda sua trajetória anterior, que como temos buscado analisar na elaboração de nossas teses sobre o último ascenso operário, foi marcada pela adaptação à burocracia lulista.
O que mostra como a ruptura organizativa com a CUT não quer dizer uma ruptura política é, por um lado, o fato de que até mesmo o PCdoB rompeu com a CUT, e por outro, o fato de que após romper com a CUT, o PSTU ainda continuava fazendo parte das "chapas cutistas" que construiu junto com a Articulação em diversos sindicatos rebaixando o programa sem denunciar o governo e a burocracia da CUT. Ou seja, não travava um combate programático contra esses burocratas com os quais um dia resolveu romper.
Porém, o que a beira do Congresso mostra como estávamos corretos foi a formação de chapas do PSTU, em nome da Conlutas, com setores "em crise" da CUT no CPERS no RS e nos bancários de SP. Como colocamos no Congresso, não somos contra a frente única com outras centrais em defesa dos interesses dos trabalhadores, mas sim em chapas sindicais que abandonam o combate frontal ao governo, que foi o que ocorreu em ambos os casos. Não foi à toa que no próprio Congresso se expressou a crise de setores independentes combativos que participaram da chapa no RS.
Esses zig-zags que impõe a direção do PSTU a Conlutas – sectários (ultra esquerdistas) no que diz respeito a ter uma política para desmascarar a direção da CUT de unidade de ação e enfrentamento para a luta; e oportunistas para fazer chapas eleitorais rebaixando os programas quando a chave são as definições políticas e programáticas - deixam desarmados os trabalhadores da Conlutas frente a um cenário onde esses são os grandes responsáveis pelo controle do movimento de massas.
Que papel o Congresso da Conlutas deveria cumprir?
Frente a esse cenário, a Conlutas, apesar de minoritária, tem um importante papel a cumprir para aglutinar os setores de vanguarda. Isso apesar de que refluiu o processo de lutas no funcionalismo público que foi a base do surgimento da Conlutas, o governo segue com alta popularidade e a burocracia sindical segue com um grande controle sobre o movimento operário.
Em primeiro lugar, havia processos importantes de luta em meio ao Congresso que poderiam transformá-lo em um marco de coordenação. Além disso, apesar da Conlutas não ser de massas, estava colocada uma grande oportunidade para armá-la com um programa capaz de tirá-la do isolamento e começar a transformá-la numa referência sindical e política para setores mais amplos dos trabalhadores e do povo oprimido se levantasse uma política efetiva para esses problemas que são sentidos pelas massas como a inflação, a violência policial e a corrupção.
Abrindo as portas para o PSOL e para o chavismo
Um dos principais pontos debatidos no Congresso foi à posição em relação a Chávez e os governos burgueses da América Latina. A maioria dos companheiros que se expressaram sobre esse ponto, começando por Valério Arcary na abertura do Congresso, falaram contra Chávez denunciando seu caráter burguês, denunciando a repressão aos operários siderúrgicos da Sidor, que Chávez continua pagando a divida externa e alimentando a maquinaria de guerra dos EUA com o petróleo da Venezuela e que suas "nacionalizações" não são mais do que sociedades mistas com o empresariado local e o imperialismo.
Mas apesar desse importante debate, para não fechar as portas para os acordos eleitorais com PSOL, o PSTU se recusou a votar uma clara resolução contra Chávez e os governos burgueses da América Latina. Ao se abster dessa forma, o PSTU abriu mão da luta pela independência política dos trabalhadores, que deveria se expressar num combate a influencia do chavismo sobre o movimento de massa latino-americano. A resolução aprovada, de que a Conlutas não deve se posicionar, não só deixa as portas abertas ao PSOL (que insiste em não entrar apesar da insistência de anos do PSTU), como também deixa as portas abertas para os próprios chavistas e a conciliação de classes.
Na questão das eleições também se mostrou que um espectro ronda a Conlutas: o espectro do PSOL. Ao contrário de defender suas posições claramente perante o Congresso da Conlutas, o PSTU votou duas resoluções contraditórias. Para se cobrir "pela esquerda" aceitou a formulação proposta pelo Sintusp de "nenhum apoio a partidos burgueses ou partidos de esquerda que praticam a conciliação de classes", mas ao mesmo tempo votou que o Congresso não deveria se posicionar sobre a Frente de Esquerda. Pois essa Frente seria indefensável, já que é difícil explicar como um partido de "esquerda" como o PSOL que aprovou o super-simples e que tem uma direção que apóia alianças com partidos burgueses não defende a conciliação de classes.
Contra a política de adaptação ao PSOL nas eleições, que subordina a Conlutas a uma política de conciliação de classes, levamos ao Congresso uma proposta clara, que propunha a ruptura com a Frente de Esquerda e que chamava o PSTU a se apoiar na Conlutas para impulsionar uma verdadeira frente classista nas eleições, com um programa votado pelos trabalhadores e para o apoio às lutas em curso chegar a milhões de trabalhadores em todo o país.
A resolução de unidade com a Intersindical, assim como a resolução sobre eleições, deixa a direção do PSTU com as mãos livres para fazer todo tipo de acordo com o PSOL, rebaixando ainda mais o programa votado pelo Congresso da Conlutas. Contra esse tipo de unidade pelo alto, tão comum na prática petista, que sempre leva o setor mais radicalizado dos trabalhadores a abandonar a sua política para "não romper a unidade", defendemos que a única unidade correta com a Intersindical deve ser imposta a partir da luta pela unidade da própria classe, que está divida em efetivos e terceirizados, em trabalhadores bem pagos e precarizados e da luta para unificar nas lutas reais e não nos discursos. A unidade com a Intersindical não se dará em negociações de dirigentes, como demonstrou cabalmente a ruptura do MTL, mas deve ser imposta pela base, em cada sindicato e em cada categoria.
Fora a Policia da Conlutas!
A defesa entusiasmada feita pelo PSTU da presença de sindicatos e associações de policiais na Conlutas, inclusive a possibilidade de participarem da sua direção, é uma ruptura com o princípio de independência de classe e uma adaptação ao regime e ao Estado burguês. Na situação em que uma nova geração de trabalhadores e jovens surge para a vida política a partir da ruptura com o petismo, e que as políticas repressivas da burguesia contra o povo pobre das grandes cidades e do campo se aprofunda, o PSTU cumpriu um grande desfavor a causa dos trabalhadores.
Confundindo a posição dos revolucionários frente ao exército e a policia, defendendo abertamente que o policial é um trabalhador como outro qualquer, escondendo que a alta hierarquia da PM também participa das greves por maiores salários e melhores condições de "trabalho", o PSTU está educando toda a nova geração a confiar nos policiais e ver o policial como o setor social que pode assegurar a vitória da revolução. Isso é um abandono das posições revolucionárias que ensinam os trabalhadores a confiar só nas suas próprias forças, que ensinam que o único ponto sólido onde uma revolução pode se apoiar é no armamento das massas, que ensinam que sem armar o movimento operário é puro propagandismo falar em "rachar" o exército.
Com a sua resolução o PSTU poupa aos repressores o trabalho de enviar agentes infiltrados para as nossas reuniões, já que recebe de portas abertas os policiais. Isso é uma grave ameaça ao caráter independente da Conlutas e pode ameaçar também a própria segurança física dos integrantes da coordenação.
Chamamos todos os companheiros que repudiam a presença de policias na Conlutas, para se somarem a nós na luta que continuaremos travando contra essa política escandalosa. Fora à polícia da Conlutas!
É necessário romper com o legalismo e a estrutura sindical varguista
O PSTU defendeu e aprovou legalizar imediatamente a Conlutas como central sindical na nova lei aprovada pelo governo Lula. O principal argumento utilizado foi que legalizando a Conlutas ficará mais fácil conseguir a representação de novas categorias de trabalhadores nas negociações com a patronal.
Mas a lei aprovada pelo governo Lula tem como objetivo atrelar ainda mais os sindicatos e as centrais sindicais ao governo, coroando assim toda a estrutura legal que regula a forma como devem se organizar os trabalhadores, através da estrutura das datas-base e do papel disciplinador cumprido pela justiça do trabalho. Legalizar já a Conlutas significa abrir mão da luta contra a reforma sindical e se adaptar ao legalismo que hoje subordina as lutas operárias às regras impostas pela burguesia.
A única posição correta seria rechaçar essa lei e denunciar as reais intenções de Lula e do PT, considerando inclusive que a CUT nunca foi legalizada e que isso nunca impediu que fosse reconhecida pela patronal e pelo Estado nas negociações salariais. A luta contra a reforma sindical de Lula é apenas parte da luta contra toda a estrutura sindical vigente, desde os tempos do governo Vargas, que busca disciplinar o movimento operário. Uma das tarefas urgentes da Conlutas é avançar na ruptura com esse legalismo que predomina no sindicalismo brasileiro. A forma como a Conlutas vai garantir sua representatividade não vai ser através da sua legalização e sim do seu reconhecimento pela base dos trabalhadores em cada local de trabalho.
Uma resolução que exclui as oposições sindicais da Conlutas
A subordinação à estrutura sindical vigente que se expressou na defesa enérgica que o PSTU fez da legalização da Conlutas, se expressou ainda com mais força na resolução proibitiva que foi aprovada em relação às oposições sindicais. A partir deste Congresso só terão representação na Conlutas as oposições que já tiverem participado de eleições ou que tenham representação legal. Isso significa, por exemplo, que os operários da Revap (e a grande maioria dos setores terceirizados) não terão voto nas reuniões da Conlutas, pois nunca participaram de eleições sindicais. Também não poderão participar da Conlutas, com voz e voto, os companheiros que organizam oposições clandestinas e que se enfrentam diretamente com a repressão das patronais e da burocracia governista.
Chamamos os companheiros do PSTU a rever essa posição, que repete a prática política aplicada por Lula e pelas direções sindicais "autenticas" do ABC nas greves de 78-80. Nesse momento dezenas de milhares de metalúrgicos de São Paulo iam à greve organizados e dirigidos pela Oposição Metalúrgica, mas os sindicalistas do ABC aceitavam organizar uma Intersincal com a presença dos pelegos que dirigiam o sindicato, com Joaquinzão à frente, mas não aceitavam a Oposição.
O que significa concretamente a "estratégia socialista" para o PSTU?
O PSTU deu peso na defesa da estratégia socialista para a Conlutas. Nós não podemos mais do que concordar que os sindicatos da Conlutas devem ter essa perspectiva. Porém, é necessário um debate sobre qual é o conteúdo concreto dessa questão [5].
Em primeiro lugar, o que nós trabalhadores devemos entender por estratégia socialista? Para nós, a estratégia socialista significa que não basta que os trabalhadores se organizem somente para a luta econômica isoladamente em cada categoria, que é necessário não somente avançar na unidade das fileiras operárias para combater nossos inimigos de classe com um só punho não somente nas lutas econômicas, mas também se elevar à luta política, preparando os trabalhadores para arrancar o poder da burguesia e seu Estado, baseado nas organizações de auto-organização das massas, com um partido revolucionário à frente.
Adotar essa estratégia, significa em primeiro lugar não se adaptar ao sindicalismo e ao eleitoralismo. Ou seja, não transformar as táticas de participar das lutas e das eleições em estratégia, o que na verdade acaba deslizando no sentido de outra estratégia, que podemos chamar "estratégia de desgaste" [
6]. Infelizmente, não é isso que se vê na prática do PSTU, que leva essa influência à Conlutas.
Mas também não podemos aceitar que se fale de estratégia socialista, fazendo discursos vermelhos, mas não se cumpre com o classismo mais elementar que é o de cercar de solidariedade as lutas dos trabalhadores como a da REVAP.
Por isso, fazemos um chamado a ser conseqüente quando se fala de "estratégia socialista".
Cotas bastam para lutar contra o racismo e a opressão das mulheres?
Para nós da LER-QI e para os trabalhadores que atuaram conosco nesse Congresso a defesa das mulheres e do povo negro são duas questões estratégicas na luta dos trabalhadores. São as mulheres e os negros os que em sua maioria engrossam as fileiras dos setores mais explorados da classe, que foram os mais atacados com a ofensiva neoliberal, que ocupam os piores empregos e recebem os menores salários. São esses setores justamente os primeiros estão indo à luta contra o rebaixamento salarial provocado pela inflação. No entanto, as duas principais resoluções a respeito foram cotas para as mulheres na direção dos sindicatos e cota para os negros na universidade. A questão da cota para mulheres nos sindicatos é uma questão tática e atinge uma ínfima minoria das trabalhadoras sindicalizadas e militantes. As questões fundamentais para a grande maioria não foram abordadas, pois não se discutiu como combater a reacionária campanha da Igreja Católica e de Heloisa Helena e como defender as milhares de mulheres do Mato Grosso do Sul e Limeira que estão sendo criminalizadas por terem feito abortos. Nem se discutiu como organizar a luta para igualar os salários entre homens e mulheres e como lutar por creches públicas. Para o movimento negro, a direção do PSTU reservou somente a organização das atividades culturais e o lançamento de um "novo movimento negro" a partir do "Quilombo" montado no Congresso. Infelizmente, na Plenária Final que votou as resoluções, o movimento negro pouco se expressou e não se discutiu que programa que os sindicatos da Conlutas devem levantar em defesa dos trabalhadores negros e do conjunto do povo negro. A única questão discutida foi a luta por cotas nas universidades, uma demanda que, se defendida por fora de uma programa de conjunto, é facilmente utilizada por setores burgueses e governistas para cooptar parcelas importantes do movimento negro.
Cerceamento do debate na Plenária Final
A conseqüência de uma orientação que deixa as portas abertas à conciliação de classes, à burocratização dos sindicatos e que abandona o combate à reforma sindical, é que mesmo o PSTU tendo a maioria do Congresso ao seu lado, não pode deixar o debate correr livremente na Plenária Final.
A direção do PSTU utilizou basicamente dois métodos para cercear o debate. Em primeiro lugar, usando o argumento da falta de tempo, aprovou uma resolução que garantia o poder da "comissão de sistematização" (totalmente controlada pelo PSTU) de decidir o que iria à votação e o que não iria. A discussão sobre Cuba, por exemplo, onde o PSTU mantém uma posição vergonhosa de não mais defender as conquistas da revolução que ainda restam, o que o leva a ter unidade na política pratica com os "gusanos" (como são chamados os capitalistas cubanos que vivem em Miami, nos EUA), não foi discutida em plenário. Como o PSTU queria evitar essa discussão, ela foi colocada por último na sistematização e consequentemente não foi à votação, assim como muitas outras resoluções aprovadas nos grupos de discussão.
A outra forma principal foi a prática dos amálgamas, que o PSTU utilizou para distorcer as propostas das minorias. Assim, muitas propostas independentes apareciam como adendos nas teses da maioria, mesmo que fossem opostas pelo vértice com outros pontos defendidos na mesma resolução pela maioria. Ou então, também juntava todas as propostas das minorias numa única defesa, reduzindo seu tempo de fala e apagando suas diferenças, muitas vezes fundamentais. O PSTU com esse tipo de pratica não faz mais do que demonstrar a sua fragilidade como partido e a pouca qualidade da discussão que faz com seus simpatizantes. E pior, também vai educando toda uma geração de trabalhadores e estudantes numa prática burocrática, oposta às melhores tradições do movimento operário.
A "ultra" funcional à política do PSTU
A política da LBI e outros grupos sectários, apesar da verborragia de esquerda, é muito conveniente ao PSTU. Como suas posições expressam apenas a vontade dessas organizações e não as necessidades reais do movimento operário, facilitam o trabalho desse partido de desqualificar todas as minorias, e acabam sendo um entrave à luta real pela independência de classe. Não à toa a LBI não teve a palavra vetada uma só vez na plenária final, com o PSTU estimulando suas falas.
Suas políticas são tão absurdas e lunáticas, que apesar das críticas estridentes, a resultante final é um embelezamento do PSTU. Para rechaçar qualquer tipo de unidade com a Intersindical, "batalha" que quiseram transformar na "grande luta principista" (não é coincidência que era a mera oposição à política central do PSTU e não ligada às necessidades reais dos trabalhadores), a LBI faz uma defesa do papel da Conlutas que a exalta nas nuvens como se fosse a grande resolução dos problemas da humanidade, mesmo hoje, sobre a direção absolutamente majoritária do PSTU que eles tanto criticam. Ao defender que a Conlutas deve se transformar na "Cocep", um embrião de duplo poder (!) e organizar sozinha uma greve geral contra Lula, a LBI, sem se dar conta disso, acaba atribuindo ao próprio PSTU uma força que ele não tem e defendendo que seja o próprio PSTU a cumprir com essas tarefas. Tarefas tão revolucionárias no discurso, quanto afastadas da realidade.
Cumprir com as resoluções que apontam para a independência de classe
Essa prática dos amálgamas levou o Congresso da Conlutas a aprovar apenas formalmente algumas resoluções que os militantes do PSTU tinham combatido nos grupos de discussão e outras que não constavam nas teses apresentadas pela maioria.
Desse conjunto de resoluções aprovadas formalmente, três delas apresentadas inicialmente pelos trabalhadores da USP são de fundamental importância para as lutas dos trabalhadores contra a inflação, pela independência de classe e contra a burocratização dos sindicatos. São elas: organizar uma campanha salarial de emergência no segundo semestre, não se restringindo às categorias que já tem data-base marcada; organizar uma campanha em defesa dos trabalhadores terceirizados defendendo sua imediata incorporação como trabalhadores efetivos e defendendo a equiparação salarial – igual trabalho, igual salário; e a resolução de que todos os dirigentes sindicais liberados a mais de um mandato devem voltar ao trabalho. Já tivemos a experiência no CONAT de como o PSTU incorpora de forma oportunista algumas resoluções para evitar o debate e depois não as aplica na realidade, como aconteceu com a luta pelo salário mínimo do Dieese. Exigimos que o PSTU cumpra com as resoluções votadas! Se não o fazem novamente, estarão demonstrando claramente que não querem construir nenhuma coordenação real de lutas em base à democracia operária.
Construamos uma corrente verdadeiramente classista e anti-burocrática na Conlutas
A política que vem impondo para a Conlutas sua direção majoritária não diminui a importância da luta em seu seio por uma política conseqüente. Por isso, viemos dando essa batalha e chamamos a todos os que tenham acordo com as posições que aqui colocamos, ainda que seja uma parte delas, a dar uma batalha em comum por essa perspectiva, para que a Conlutas possa de fato cumprir o papel que lhe cabe e não retroceder ainda mais.
Saudamos os companheiros do Sintusp pela batalha política travada no Congresso e chamamos os trabalhadores e jovens a se juntarem a nós para aprofundar essa perspectiva de construir uma Conlutas classista.
[1] Inclusive, só estavam presentes a maioria dos delegados na plenária inicial e final, sendo que dos grupos de discussão participaram cerca de 1500 pessoas.
[2] Chamamos os leitores a acompanharem esse processo de luta nesse site. Leia nosso balanço da campanha salarial da REVAP no Jornal Palavra Operária nº42 e nossa declaração frente à brutal repressão que sofreram.
[3] Até agora, o PSTU tem sido irresponsável frente às demissões e a repressão. Por exemplo, a reunião marcada no domingo em São José dos Campos para organizar o ato de 2ª feira, para a qual deslocamos camaradas de nossa organização, sequer aconteceu. No ato de 2ª feira, quase não se via a militância do PSTU, que sequer superava em número a militância da LER-QI. Além disso, não organizou nenhum operativo alternativo ao boicote patronal aos ônibus para garantir um ato forte nem mesmo uma superestrutura que desse cobertura a essa luta. Na quarta-feira, mais uma vez, estivemos presentes ao ato que foi um completo fracasso e onde o PSTU não colocou nenhum peso.
[4] Na nota da Conlutas de SJC de 11/07, é dito: "...a direção da Petrobrás, em São José dos Campos, autorizou, de maneira totalmente irresponsável, a entrada da Tropa de Choque e da Força Tática para reprimir os trabalhadores das obras de expansão, que estão em greve. Essa atitude colocou em risco a vida dos trabalhadores, da comunidade que cerca a refinaria e dos próprios policiais. Um acidente gravíssimo poderia ter acontecido e milhares de pessoas poderiam ficar feridas e até ter morrido."
[5] Os companheiros do PSTU colocavam como um dos argumentos centrais para defender essa resolução o fato de que essa seria em si uma superação da CUT. É verdade é que a CUT nunca teve uma estratégia socialista, afinal, apesar de expressar a força do movimento operário, sempre foi controlada pelos burocratas da Articulação que são opostos a essa estratégia. Porém, o PSTU deveria explicar então porque somente em 95, depois de mais de 10 anos de CUT dizia no boletim "Uma primeira avaliação da plenária nacional da CUT", do MTS (Movimento por uma Tendência Socialista-CUT), tendência sindical criada pelo PSTU que "o setor majoritário da direção nossa central [...] tem abandonado o projeto classista, de luta e socialista da origem da CUT e abraçado as concepções de reforma do capitalismo da social-democracia".
[6] Isso somente para diferenciar a "estratégia socialista" da "estratégia de desgaste", sem entrar nas diferentes "estratégias socialistas" que existem na esquerda e na história do movimento operário. Para aprofundar nesse "debate das diferentes estratégias na esquerda", ver "debate de estratégias" no JPO 35. Nele, dizemos: "a Revolução Russa deu lugar à estratégia da tomada do poder pela classe operária e da ditadura do proletariado (...) outras grandes revoluções, como a Revolução Chinesa ou a Revolução Vietnamita, deram lugar a outras estratégias, a estratégia da guerra popular prolongada; e a análise da experiência da Revolução Cubana por Ernesto Guevara e Regis Debray deu origem à estratégia do foquismo (...) Frente a essas três estratégias que surgem das revoluções, está a formulação de Kautsky da "estratégia de desgaste", surgida da ausência de revolução, mediante a qual se transforma a tática de participar de eleições e de participar em sindicatos em estratégia. Há trinta anos que não há uma revolução no mundo; há levantamentos, como na Bolívia, como na Venezuela, como na Argentina em 2001, porém revoluções proletárias clássicas, e muito menos triunfantes, não há desde 25 ou 30 anos (...) a "estratégia de desgaste" diz que participando das eleições, ganhando sindicatos, participando em manifestações de massas, etc., vamos desgastando o poder do inimigo até chegar um momento em que possamos nos impor ao poder do inimigo (...) mas em termos gerais quem termina se desgastando é ele, a menos que isso esteja ligado a uma estratégia maior (...) aqueles que lutam taticamente e não concebem a tática subordinada à estratégia estão gerando arrivistas pequeno-burgueses."
domingo, 6 de julho de 2008
Uma justa homenagem
Depois de um tempo parado, diretamente do site www.patofu.com.br uma musiquinha em homengem às:
Minhas Férias (John)
É duro viver todo dia
Quase todo dia eu vivo de montão
Procuro sempre novos modos de viver
E vivo sempre da mesma maneira
Ié, Ié, Ié... Ié, Ié, Ié... 2X
Logo cedo eu ganho um monte de bom dia
o dia é tão comprido
Eu durmo de noitão
Procuro novos modos de não morrer
E morro sempre da mesma maneira
Ié, Ié, Ié... Ié, Ié, Ié...
Eu estou vivo
Eu tô vivinho
Eu tô vivão
Tirar umas férias
Que tal tirar umas férias
Foi só uma maneira de esfriar o cabeção
Mas minha cabeça tem duas partes
Parte A e parte B
A parte boa acabou sendo a pior então
Minhas Férias (John)
É duro viver todo dia
Quase todo dia eu vivo de montão
Procuro sempre novos modos de viver
E vivo sempre da mesma maneira
Ié, Ié, Ié... Ié, Ié, Ié... 2X
Logo cedo eu ganho um monte de bom dia
o dia é tão comprido
Eu durmo de noitão
Procuro novos modos de não morrer
E morro sempre da mesma maneira
Ié, Ié, Ié... Ié, Ié, Ié...
Eu estou vivo
Eu tô vivinho
Eu tô vivão
Tirar umas férias
Que tal tirar umas férias
Foi só uma maneira de esfriar o cabeção
Mas minha cabeça tem duas partes
Parte A e parte B
A parte boa acabou sendo a pior então
quinta-feira, 26 de junho de 2008
Creative Commons
Bem... Não sou bom em utilizar o blog, sei mais escrever... Mas, coloquei um link do Creative Commons (CC) na página para colocar que estou aderindo à licença defendida pela CC. Reproduzo abaixo os parâmetros dessa licença, mas queria ressaltar que ela só é válida para os textos PRODUZIDOS E ASSINADOS POR MIM. Alguns textos copiados e músicas têm, legalmente, seus direitos reservados de acordo com seus interesses. Espero compreenssão de todos e todas...
Segue as condições da licença e a sua versão. Para saber mais, entrar no link que aparece na página.
Atribuição 2.5 Brasil
Você pode:
copiar, distribuir, exibir e executar a obra
criar obras derivadas
Sob as seguintes condições:
Atribuição. Você deve dar crédito ao autor original, da forma especificada pelo autor ou licenciante.
Para cada novo uso ou distribuição, você deve deixar claro para outros os termos da licença desta obra.
Qualquer uma destas condições podem ser renunciadas, desde que Você obtenha permissão do autor.
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domingo, 1 de junho de 2008
Opressão futebolístca
A opressão sudestina não é de hoje. O nortista ou nordestino que vai ao sul (englobando aí a região sul ou sudeste) sempre é recebido com preconceito e considerado como inferior, seja nas universidades ou em qualquer outro local. Salta aos olhos, no aspecto econômico essa relação opressiva, construída através da história.
Apesar de no mundo do futebol os cartolas estarem todos vinculados à elite brasileira, essa relação opressão também nos salto aos olhos.
Resolvi publicar esse post porque, vendo o jogo que passava na Globo entre Náutico e Botafogo, pude mais uma vez perceber essa relação, já que a torcida do Botafogo pode não ter ido em peso para os Aflitos, no Recife, mas estava bem representado na narração do jogo. Tudo que o Náutico fazia era absurdo, já o Botafogo, quando abusava de violência em campo, era culpa do juíz. O mais curioso é que mesmo quando o zagueiro André, do Botafogo, agrediu a torcida, fazendo gestos obscenos à torcida do alvi-rubro pernambucano e foi retirado pela polícia, os narradores culparam, claro, o juíz, e até mesmo a administração dos Aflitos. Enquanto aconteciam as coisas, um jogador do Botafogo fingia ter recebido gás de pimenta (era visível na cara dele que não havia tido nada, nem olhos vermelhos e nem nariz...). Curioso é que essa mesma emissora vibra quando a polícia age violentamente contra os movimentos sociais, mas, o jogador do Botafogo, mesmo depois de agredir (ou defender-se) dos políciaismas isso é o que menos importa...
Não foi a primeira vez. A Globo, nesse caso, não é quem monopoliza a opressão. As emissoras concorrentes (Band e Rede TV!) fazem uma campanha pela subida do Corinthians. Essa semana no jogo em Natal/RN, entre o time paulista e o ABC, a vitória dos "sulistas" era praticamente certo. Mais do que esse jogo, as emissoras esquecem de outros times grandes que jogam na Série B, como o próprio Bahia, campeão em média de público no ano passado, mesmo estando na Série C do campeonato brasilero.
Mas o pior disso tudo é a campanha que já coloca o Corinthians campeão da Copa do Brasil 2008. Mesmo estando disputando com um dos melhores times do Brasil e que disputa a Série A do Brasileirão o Sport Club do Recife é apontado com o azarão dessa final. Invertendo a "lógica" criada por eles mesmos, o time da Série B é o favorito.
Já não bastava a segregação dianta da convocação para a seleção oficial brasileira da Nike, agora os Nordestinos, no futebol, têm que aguentar a ira das emissoras de televisão fascistóides contra os bons times montados pelos Nordestinos (mesmo com as dificuldades de times como o Bahia, Fortaleza, Santa Cruz, CRB e outros).
Esperamos que os times do Nordeste façam por onde e calem a boca dessa mídia fascistóide racista e anti-Nordestina...
Quanto ao caso do Botafogo... Esperemos e veremos... A Globo já sugeriu a punição do Náutico, com mando de campo, mas ninguém se pronunciou contra as atitudes do Vasco, contra o Sport, no meio da semana!!
Abaixo à Globo, Band e Rede Tv por suas atitudes arbitrárias pró os grandes times do Rio e São Paulo!!
Boa sorte e bom futebol para as torcidas do Nordeste e do do Norte do nosso país!!
Apesar de no mundo do futebol os cartolas estarem todos vinculados à elite brasileira, essa relação opressão também nos salto aos olhos.
Resolvi publicar esse post porque, vendo o jogo que passava na Globo entre Náutico e Botafogo, pude mais uma vez perceber essa relação, já que a torcida do Botafogo pode não ter ido em peso para os Aflitos, no Recife, mas estava bem representado na narração do jogo. Tudo que o Náutico fazia era absurdo, já o Botafogo, quando abusava de violência em campo, era culpa do juíz. O mais curioso é que mesmo quando o zagueiro André, do Botafogo, agrediu a torcida, fazendo gestos obscenos à torcida do alvi-rubro pernambucano e foi retirado pela polícia, os narradores culparam, claro, o juíz, e até mesmo a administração dos Aflitos. Enquanto aconteciam as coisas, um jogador do Botafogo fingia ter recebido gás de pimenta (era visível na cara dele que não havia tido nada, nem olhos vermelhos e nem nariz...). Curioso é que essa mesma emissora vibra quando a polícia age violentamente contra os movimentos sociais, mas, o jogador do Botafogo, mesmo depois de agredir (ou defender-se) dos políciaismas isso é o que menos importa...
Não foi a primeira vez. A Globo, nesse caso, não é quem monopoliza a opressão. As emissoras concorrentes (Band e Rede TV!) fazem uma campanha pela subida do Corinthians. Essa semana no jogo em Natal/RN, entre o time paulista e o ABC, a vitória dos "sulistas" era praticamente certo. Mais do que esse jogo, as emissoras esquecem de outros times grandes que jogam na Série B, como o próprio Bahia, campeão em média de público no ano passado, mesmo estando na Série C do campeonato brasilero.
Mas o pior disso tudo é a campanha que já coloca o Corinthians campeão da Copa do Brasil 2008. Mesmo estando disputando com um dos melhores times do Brasil e que disputa a Série A do Brasileirão o Sport Club do Recife é apontado com o azarão dessa final. Invertendo a "lógica" criada por eles mesmos, o time da Série B é o favorito.
Já não bastava a segregação dianta da convocação para a seleção oficial brasileira da Nike, agora os Nordestinos, no futebol, têm que aguentar a ira das emissoras de televisão fascistóides contra os bons times montados pelos Nordestinos (mesmo com as dificuldades de times como o Bahia, Fortaleza, Santa Cruz, CRB e outros).
Esperamos que os times do Nordeste façam por onde e calem a boca dessa mídia fascistóide racista e anti-Nordestina...
Quanto ao caso do Botafogo... Esperemos e veremos... A Globo já sugeriu a punição do Náutico, com mando de campo, mas ninguém se pronunciou contra as atitudes do Vasco, contra o Sport, no meio da semana!!
Abaixo à Globo, Band e Rede Tv por suas atitudes arbitrárias pró os grandes times do Rio e São Paulo!!
Boa sorte e bom futebol para as torcidas do Nordeste e do do Norte do nosso país!!
sexta-feira, 23 de maio de 2008
Kafka
O meu escritorpreferido! O texto que reproduzo aqui é retirado do livro A Metamorfose, seguido de O Veredicto, duas obras dele publicadas pela L&PM Pocket, uma versão muito boa, diga-se de passagem, com comentários deveras enriquecedores... Nada de ortodoxamente marxista revolucionário, mas, como dizia Trotsky, nem só de política vive o homem... hehehehehehe.. Então, estou transcrevendo o ótimo prefácio da edição já citada, escrita por Marcelo Backes. Desde já, agradeço à Bruno, meu colega de trabalho que me emprestou essa versão. Boa leitura.
"Franz Kafka (1883-1924) é um dos maiores escritores de todos os tempos. Não há lista de romance universal em que não figure O processo, assim como não há lista de novela em que não apareça A metamorfose. Sua obre é tão importante que Heinz Politzer, um dos mais conhecidos comentaristas de Kafka, chegou a escrever: ' Depois da metamorfose de Gregor Samsa, o mundo onde nos movimentamos tornou-se outro'.
Em 10 de setembro de 1912, às dez horas da noite, Kafka começou a escrever O verdicto.Quando terminou, por volta das seis horas da manhã do dia seguinte, totalmente esgotado, sem conseguir tirar as pernas de sob a escrivaninha, apontou em seu diário que havia descoberto 'como tudo poderia ser dito'; que inclusive para as idéias mais estranhas havia um grande fogo pronto, no qual elas se consumiam para depois ressuscitarem.
Dois meses depois viria A metamorfose, a mais conhecida, a mais citada, a mais estudada de suas obras. Em 7 de dezembro Kafka escrevia à ua noite, Felice Bauer: 'Minha pequena história está terminada'. A obra era concluída 20 dias depois de ter sido iniciada.
A metamorfose e O veredicto (cada uma com duas edições) viriam a ser duas das três únicas obras de Kafka reeditadas ainda em vida do autor. O foguista , que depois passaria a integrar o romance América teria três edições. Embora tenha descoberto seu caminho de escritor já em 1912, Kafka jamais chegou a alcançar fama enquanto vivo. Ainda que tivesse escritores do calibre de Robert Musil entre os apreciadores e incentivadores de sua obra e mesmo tendo recebido, em 1915, o prêmio Fontane de Literatura Alemã - um dos mais importante da época -, Kafka morreu sem saber que seria eterno.
Kafka chegou a participar da comunidade judaica, até de manifestações socialistas, mas foi sempre um solitário. Apesar de quatro noivados, apesar de um punhado de amigos - um deles tão fiel que foi incapaz de cumprir seu derradeiro pedido: Max Brod a quem o mundo deva a publicação d'O processo e d'O castelo, entre outras obras - Kafka foi avesso à convivência. Embora tenha morado boa parte da vida com sua família, o autor sempre viveu sozinho. Kafka não era nada e era tudo ao mesmo tempo. Era judeu, escrevia em alemã, nascera na Boêmia e devia submissão ao Império Austro-Húngaro. Nessa terra de ninguém, fechado dentro de si mesmo, Kafka se tornou um dos mais importantes escritores do século XX.
A obre de Kafka já foi analisada por todas as suas facetas, e o volume de sua fortuna crítica encheria bibliotecas inteiras. O desepero do homem moderno em relação à existência, a eterna busca de algo que não está mais à disposição, a pergunta por aquilo que não tem resposta são as características mais marcantes de sua obra. Seus personagens são vítimas de um enigma insolucionável - a própria vida. Com sua obra, Kafka escreve o evangelho da perda, assinala o fim da picada. Ele é o escritor lusco-fusco, o poeta da penumbra, a literatura em seu próprio crepúsculo.
O realismo de Kafka e mágico, mas sóbrio ao mesmo tempo; seu humor às vezes é grotesco, outras vezes irônico, mas no fundo sempre carregado de seriedade. Sua prosa é dura, seca e despojada. Kafka reduz a riqueza da língua alemã a trezentas palavras, e mesmo assim é um dos maiores estilistas da prosa alemã. O que Kafka escre é ele mesmo, o ser em si. Sua literatura é seu 'eu' feito letra: seu estilo é marcante, embora uma de suas maiores características seja a impressoalidade. É como se o autor não necessitasse da muleta do estilo - em seu aspecto subjetivo - para fazer brotar seu eu, sua individualidade. Kafka não trata de ânimos ou ambientes, nem de experiências ou psicologias. Ele fala do fundamento da existência em si, do qual a parábola é o melhor modelo. Num dos fragmentos de seus Diários está escrito:'Escrever como forma de oração.' e Kafka fez de sua arte sua reza.
George Lukács, em sua crítica reduzidamente marxista, viu em Kafka apenas a decadência tardia do mundo burguês. Theodor Adorno, marxista tardio, teórico da Escola de Frankfurt, disse: 'Os protocolos herméticos de Kafka contém a gênese social da esquizôfrenia' e assinalou em Kafka a essência do mundo moderno. Sigmund Freud se perguntava: 'Será Kafka um Homo religiosus ou alguém que com seus 'veredictos' toma nas mãos a vingança contra Deus e contra seu mundo desfigurado pelos homens?' O pai da psicanálise referia-se à sua obra O veredicto, e logo depois dela viria A metamorfose, apresentando, a mesma situação, aparentada em índole e conteúdo; fruto da mesma época, produto da mesma safra.
Kafka planejava reunir O veredicto, A metamorfose e O foguista numa obra chamada Filhos (Söhne). Mais tarde pensou em pôr O veredicto, A metamorfose e Na colônia penal, num mesmo livro, intitulado Punições (Strafen). Nunca veio a realizar seus intuitos, mas tanto "punições" quanto "filhos" são palavras sintéticas - exatamente conforme Kafka as apreciava nos títulos - para definir um pouco do muito que as duas obras deste volume têm em comum.
'O poeta tem a tarefa de levar aquilo que é mortal e isolado à vida infinita, o acaso ao legítimo. Ele tem uma tarefa profética'. Mas essa tarefa profètica, Kafka não via como um presente dos céus, mas como uma ordem do inferno. ' Tudo o que não é literatura me aborrece, e eu odeio até mesmo as conversações sobre literatura.' À leitura, pois."
"Franz Kafka (1883-1924) é um dos maiores escritores de todos os tempos. Não há lista de romance universal em que não figure O processo, assim como não há lista de novela em que não apareça A metamorfose. Sua obre é tão importante que Heinz Politzer, um dos mais conhecidos comentaristas de Kafka, chegou a escrever: ' Depois da metamorfose de Gregor Samsa, o mundo onde nos movimentamos tornou-se outro'.
Em 10 de setembro de 1912, às dez horas da noite, Kafka começou a escrever O verdicto.Quando terminou, por volta das seis horas da manhã do dia seguinte, totalmente esgotado, sem conseguir tirar as pernas de sob a escrivaninha, apontou em seu diário que havia descoberto 'como tudo poderia ser dito'; que inclusive para as idéias mais estranhas havia um grande fogo pronto, no qual elas se consumiam para depois ressuscitarem.
Dois meses depois viria A metamorfose, a mais conhecida, a mais citada, a mais estudada de suas obras. Em 7 de dezembro Kafka escrevia à ua noite, Felice Bauer: 'Minha pequena história está terminada'. A obra era concluída 20 dias depois de ter sido iniciada.
A metamorfose e O veredicto (cada uma com duas edições) viriam a ser duas das três únicas obras de Kafka reeditadas ainda em vida do autor. O foguista , que depois passaria a integrar o romance América teria três edições. Embora tenha descoberto seu caminho de escritor já em 1912, Kafka jamais chegou a alcançar fama enquanto vivo. Ainda que tivesse escritores do calibre de Robert Musil entre os apreciadores e incentivadores de sua obra e mesmo tendo recebido, em 1915, o prêmio Fontane de Literatura Alemã - um dos mais importante da época -, Kafka morreu sem saber que seria eterno.
Kafka chegou a participar da comunidade judaica, até de manifestações socialistas, mas foi sempre um solitário. Apesar de quatro noivados, apesar de um punhado de amigos - um deles tão fiel que foi incapaz de cumprir seu derradeiro pedido: Max Brod a quem o mundo deva a publicação d'O processo e d'O castelo, entre outras obras - Kafka foi avesso à convivência. Embora tenha morado boa parte da vida com sua família, o autor sempre viveu sozinho. Kafka não era nada e era tudo ao mesmo tempo. Era judeu, escrevia em alemã, nascera na Boêmia e devia submissão ao Império Austro-Húngaro. Nessa terra de ninguém, fechado dentro de si mesmo, Kafka se tornou um dos mais importantes escritores do século XX.
A obre de Kafka já foi analisada por todas as suas facetas, e o volume de sua fortuna crítica encheria bibliotecas inteiras. O desepero do homem moderno em relação à existência, a eterna busca de algo que não está mais à disposição, a pergunta por aquilo que não tem resposta são as características mais marcantes de sua obra. Seus personagens são vítimas de um enigma insolucionável - a própria vida. Com sua obra, Kafka escreve o evangelho da perda, assinala o fim da picada. Ele é o escritor lusco-fusco, o poeta da penumbra, a literatura em seu próprio crepúsculo.
O realismo de Kafka e mágico, mas sóbrio ao mesmo tempo; seu humor às vezes é grotesco, outras vezes irônico, mas no fundo sempre carregado de seriedade. Sua prosa é dura, seca e despojada. Kafka reduz a riqueza da língua alemã a trezentas palavras, e mesmo assim é um dos maiores estilistas da prosa alemã. O que Kafka escre é ele mesmo, o ser em si. Sua literatura é seu 'eu' feito letra: seu estilo é marcante, embora uma de suas maiores características seja a impressoalidade. É como se o autor não necessitasse da muleta do estilo - em seu aspecto subjetivo - para fazer brotar seu eu, sua individualidade. Kafka não trata de ânimos ou ambientes, nem de experiências ou psicologias. Ele fala do fundamento da existência em si, do qual a parábola é o melhor modelo. Num dos fragmentos de seus Diários está escrito:'Escrever como forma de oração.' e Kafka fez de sua arte sua reza.
George Lukács, em sua crítica reduzidamente marxista, viu em Kafka apenas a decadência tardia do mundo burguês. Theodor Adorno, marxista tardio, teórico da Escola de Frankfurt, disse: 'Os protocolos herméticos de Kafka contém a gênese social da esquizôfrenia' e assinalou em Kafka a essência do mundo moderno. Sigmund Freud se perguntava: 'Será Kafka um Homo religiosus ou alguém que com seus 'veredictos' toma nas mãos a vingança contra Deus e contra seu mundo desfigurado pelos homens?' O pai da psicanálise referia-se à sua obra O veredicto, e logo depois dela viria A metamorfose, apresentando, a mesma situação, aparentada em índole e conteúdo; fruto da mesma época, produto da mesma safra.
Kafka planejava reunir O veredicto, A metamorfose e O foguista numa obra chamada Filhos (Söhne). Mais tarde pensou em pôr O veredicto, A metamorfose e Na colônia penal, num mesmo livro, intitulado Punições (Strafen). Nunca veio a realizar seus intuitos, mas tanto "punições" quanto "filhos" são palavras sintéticas - exatamente conforme Kafka as apreciava nos títulos - para definir um pouco do muito que as duas obras deste volume têm em comum.
'O poeta tem a tarefa de levar aquilo que é mortal e isolado à vida infinita, o acaso ao legítimo. Ele tem uma tarefa profética'. Mas essa tarefa profètica, Kafka não via como um presente dos céus, mas como uma ordem do inferno. ' Tudo o que não é literatura me aborrece, e eu odeio até mesmo as conversações sobre literatura.' À leitura, pois."
domingo, 4 de maio de 2008
Mais uma dos Engenheiros
Cidade em Chamas
Engenheiros do Hawaii
Composição: Gessinger
As chances estão contra nós
Mas nós estamos por aí
A fim de sobreviver
Como um avião sobrevoa
A cidade em chamas
A cidade em chamas
No meio da confusão
Andando sem direção
A fim de sobreviver
Só pra ver como brilha
A cidade em chamas
A cidade em chamas
Se o que eu digo
Não faz sentido
Não faz sentido, ficar ouvindo
Mas o que eu digo
Não é mentira
Não faz sentido
Ficar mentindo
Enquanto as bombas caem do avião
Deixando de recordação
A cidade em chamas
A cidade em chamas
Já ouvimos esta estória
Sabemos como acaba
Acontece quase tudo
Não muda quase nada
Já vimos este filme
Sabemos como acaba
Explodem quase tudo
Não sobra quase nada
Então, só resta uma solução
Sair no meio da sessão
Pra ver
A cidade em chamas
A cidade em chamas
As chances estão contra nós
Mas nós estamos por aí
A fim de sobreviver
No meio da confusão
Andando sem direção
A fim de sobreviver
Enquanto as bombas caem do avião
Deixando de recordação
A cidade em chamas
A cidade em chamas
Não basta ter coragem
É preciso estar sozinho
É preciso trair tudo
E trazer a solidão
Eu sei que eles tem razão
Mas a razão é só o que eles tem
?quantas bocas se fecharão
Quando a bomba beijar o chão
Da cidade em chamas?
A cidade em chamas...
As chances estão contra nós
Mas nós estamos por aí
A fim de sobreviver
Como um avião sobrevoa
A cidade em chamas
Engenheiros do Hawaii
Composição: Gessinger
As chances estão contra nós
Mas nós estamos por aí
A fim de sobreviver
Como um avião sobrevoa
A cidade em chamas
A cidade em chamas
No meio da confusão
Andando sem direção
A fim de sobreviver
Só pra ver como brilha
A cidade em chamas
A cidade em chamas
Se o que eu digo
Não faz sentido
Não faz sentido, ficar ouvindo
Mas o que eu digo
Não é mentira
Não faz sentido
Ficar mentindo
Enquanto as bombas caem do avião
Deixando de recordação
A cidade em chamas
A cidade em chamas
Já ouvimos esta estória
Sabemos como acaba
Acontece quase tudo
Não muda quase nada
Já vimos este filme
Sabemos como acaba
Explodem quase tudo
Não sobra quase nada
Então, só resta uma solução
Sair no meio da sessão
Pra ver
A cidade em chamas
A cidade em chamas
As chances estão contra nós
Mas nós estamos por aí
A fim de sobreviver
No meio da confusão
Andando sem direção
A fim de sobreviver
Enquanto as bombas caem do avião
Deixando de recordação
A cidade em chamas
A cidade em chamas
Não basta ter coragem
É preciso estar sozinho
É preciso trair tudo
E trazer a solidão
Eu sei que eles tem razão
Mas a razão é só o que eles tem
?quantas bocas se fecharão
Quando a bomba beijar o chão
Da cidade em chamas?
A cidade em chamas...
As chances estão contra nós
Mas nós estamos por aí
A fim de sobreviver
Como um avião sobrevoa
A cidade em chamas
sexta-feira, 2 de maio de 2008
Bush In Babylon
O trecho abaixo é do livro Imperialismo e Resistência, de Tariq Ali, da editora Expressão Popular. Boa leitura!
... Os poetas iraquiano exilados por Saddam Hussein se opõe totalmente à ocupação. Quando encontrei o grande poeta árabe Saadi Youssef, no dia seguinte à queda de Bagdá, ele chorava. Ele me disse : Havia três grandes poetas no Iraque: eu, (Mohammed Mahid) al-Jawahri e Mudhaffar al-Nawab. Al-Jawahri morreu aos cem anos. Saddam costumava nos enviar mensagens, dizendo: "Sei que vocês são radicais, sei que me odeiam, mas vocês são radicais, sei que me deiam, mas vocês são parte da herança do Iraque; vrnha recitar seus versos em uma leitura de poesias em Bagdá e terão uma platéia de um milhão de pessoas." Ele estava certo - haveria um milhão de pessoas para ouvir os três grandes poetas. "Nunca fomos." Disse Saadi Youssef. "Muitos de nossos companheiros foram mortos quando a CIA deu a Saddam a lista de comunistas a serem eliminados. Saddam fez isso para eles. Isso nos feriu. Mudhaffar al-Nawab, companheiro exilado, disse que Saddam poderia nos matar, o filho da mãe. Não confiamos nele. Dissemos ao embaixador. Não queremos ir, e sua resposta foi 'Saddam disse que o sangue de suas veias garante a segurança de vocês.' Por algum motivo, não foi muito convicente.
Um mês antes da invasão ao Iraque, todos os exilados que agora estão no poder, apoiado pela CIA e pela inteligência britânica, foram a um encontro secreto num hotel em Londres. Saadi Youssef presenciou isso em seu exílio em Londres e disse: "um casamento de chacais".
"No sul do Iraque", continuou Youssef, "nos meses de verão, quando dormimos sob a estrela para nos refrescarmos, uma vez a cada seis meses, ou a cada três meses, uma vila irá anunciar que houve uma reunião secreta de chacais. Eles vêm, fazem barulho, acasalam deixando um cheiro insuportável. No dia seguinte, o povo acorda e diz: Você percebeu? Sentiu o cheiro do casamento de chacal? Depois se esquece disso, pois eles demoram a aparecer novamente." Quando esses colaboradores, então clamados de Congresso Nacional Iraquiano, se reuniram em Londres, ele escreveu um poema maravilhoso intitulado "O casamento dos chacais", pelo qual foi proibido de retornar ao Iraque. O poema circulou pelo mundo via internet e as pessoas por toda a parte se referiam aos colaboradores com o 'casamento dos chacais'.
Oh! Mudhaffar al-Nawab
companheiro de longa data,
que faremos quanto ao casamento dos chacais?
Você se lembra de antigamente:
no frescor da noite que cai
sob telhados de bambu
embalados por almofadas macias de fina lã
tomávamos chá (um chá que eu nunca experimentara)
Entre amigos...
A noite cai tão suave como nossas palavras
debaixo das coroas das palmeiras carregadas
enquanto a fumaça sai do coração, em curvas, um perfume
como se o Universo estivesse acabado de nascer
... E então explode o o barulho
da grama comprida e das palmeiras -
o casamento dos chacais!
... Oh! Mudhaffar al-Nawab -
hoje já não é ontem
(a verdade é tão difusa quanto o sonho de uma criança) -
a verdade é que desta vez estamos em sua recepção de casamento,
sim, o casamento dos chacais
você recebeu o convite
... Oh, Mudhaffar al-Nawab
façamos um trato:
eu vou em seu lugar
(Damasco é muito distante daquele hotel secreto [em Londres])
eu vou cuspir no rosto dos chacais,
vou cuspir em suas listas,
declaro que somos o povo do Iraque -
somos as árvores ancestrais desta terra,
orgulhosos debaixo de nosso modesto telhado de bambu.
Esse é o espírito dos iraquianos - que resistem, que sofreram com Saddam, mas se recusam a aceitar a ocupação.
... Os poetas iraquiano exilados por Saddam Hussein se opõe totalmente à ocupação. Quando encontrei o grande poeta árabe Saadi Youssef, no dia seguinte à queda de Bagdá, ele chorava. Ele me disse : Havia três grandes poetas no Iraque: eu, (Mohammed Mahid) al-Jawahri e Mudhaffar al-Nawab. Al-Jawahri morreu aos cem anos. Saddam costumava nos enviar mensagens, dizendo: "Sei que vocês são radicais, sei que me odeiam, mas vocês são radicais, sei que me deiam, mas vocês são parte da herança do Iraque; vrnha recitar seus versos em uma leitura de poesias em Bagdá e terão uma platéia de um milhão de pessoas." Ele estava certo - haveria um milhão de pessoas para ouvir os três grandes poetas. "Nunca fomos." Disse Saadi Youssef. "Muitos de nossos companheiros foram mortos quando a CIA deu a Saddam a lista de comunistas a serem eliminados. Saddam fez isso para eles. Isso nos feriu. Mudhaffar al-Nawab, companheiro exilado, disse que Saddam poderia nos matar, o filho da mãe. Não confiamos nele. Dissemos ao embaixador. Não queremos ir, e sua resposta foi 'Saddam disse que o sangue de suas veias garante a segurança de vocês.' Por algum motivo, não foi muito convicente.
Um mês antes da invasão ao Iraque, todos os exilados que agora estão no poder, apoiado pela CIA e pela inteligência britânica, foram a um encontro secreto num hotel em Londres. Saadi Youssef presenciou isso em seu exílio em Londres e disse: "um casamento de chacais".
"No sul do Iraque", continuou Youssef, "nos meses de verão, quando dormimos sob a estrela para nos refrescarmos, uma vez a cada seis meses, ou a cada três meses, uma vila irá anunciar que houve uma reunião secreta de chacais. Eles vêm, fazem barulho, acasalam deixando um cheiro insuportável. No dia seguinte, o povo acorda e diz: Você percebeu? Sentiu o cheiro do casamento de chacal? Depois se esquece disso, pois eles demoram a aparecer novamente." Quando esses colaboradores, então clamados de Congresso Nacional Iraquiano, se reuniram em Londres, ele escreveu um poema maravilhoso intitulado "O casamento dos chacais", pelo qual foi proibido de retornar ao Iraque. O poema circulou pelo mundo via internet e as pessoas por toda a parte se referiam aos colaboradores com o 'casamento dos chacais'.
Oh! Mudhaffar al-Nawab
companheiro de longa data,
que faremos quanto ao casamento dos chacais?
Você se lembra de antigamente:
no frescor da noite que cai
sob telhados de bambu
embalados por almofadas macias de fina lã
tomávamos chá (um chá que eu nunca experimentara)
Entre amigos...
A noite cai tão suave como nossas palavras
debaixo das coroas das palmeiras carregadas
enquanto a fumaça sai do coração, em curvas, um perfume
como se o Universo estivesse acabado de nascer
... E então explode o o barulho
da grama comprida e das palmeiras -
o casamento dos chacais!
... Oh! Mudhaffar al-Nawab -
hoje já não é ontem
(a verdade é tão difusa quanto o sonho de uma criança) -
a verdade é que desta vez estamos em sua recepção de casamento,
sim, o casamento dos chacais
você recebeu o convite
... Oh, Mudhaffar al-Nawab
façamos um trato:
eu vou em seu lugar
(Damasco é muito distante daquele hotel secreto [em Londres])
eu vou cuspir no rosto dos chacais,
vou cuspir em suas listas,
declaro que somos o povo do Iraque -
somos as árvores ancestrais desta terra,
orgulhosos debaixo de nosso modesto telhado de bambu.
Esse é o espírito dos iraquianos - que resistem, que sofreram com Saddam, mas se recusam a aceitar a ocupação.
sexta-feira, 25 de abril de 2008
VIDA DE OPERÁRIO!!
Para aqueles que não conhecem o Pato Fu!!
Vida de operário
Pato Fu
Composição: Excomungados
Fim de expediente cinco e meia
Cartão de ponto, operários
Saem da fábrica cansados da exploração
Oito horas e de pé
E de pé na fila ônibus lotado
Duas horas em pé ou sentado
Vida de operárioVida de operário
Vida de operário
Braços na máquina operando a situação
Crescimento da produção
E o lucro é do patrão
Semana é do patrão
Ganância é do patrão
Vida de operário
Pato Fu
Composição: Excomungados
Fim de expediente cinco e meia
Cartão de ponto, operários
Saem da fábrica cansados da exploração
Oito horas e de pé
E de pé na fila ônibus lotado
Duas horas em pé ou sentado
Vida de operárioVida de operário
Vida de operário
Braços na máquina operando a situação
Crescimento da produção
E o lucro é do patrão
Semana é do patrão
Ganância é do patrão
segunda-feira, 21 de abril de 2008
TRAIÇÃO
Nada de novo embaixo do sol!! Com essa frase começo mais um texto que fala sobre a greve dos servidores públicos municipais de Salvador. O Sindicato dos Servidores Públicos de Salvador -SINDSEPS fez o que já era esperado. Negociou com o prefeito João Henrique, mas teve avanços insignificantes na pauta. O próprio sindicato reconhece que a categoria tem uma perda acumulada de mais de 120%, mas isso não impediu que o sindicato fechasse o acordo com a prefeitura de míseros 5%, mas, vejam só que exemplo de combatividade, eles não serão mais divididos em duas vezes no ano, como era a proposta inicial, o aumento virá em uma única vez e ainda teremos aumento na gratificação (a partir do avanço nas letras, o que deve gerar um aumento de, em média, R$ 40,00, muito longe da proposta do próprio sindicato que era de 10%). Mais uma vez fica provado a inoperância no sindicato-enfeite que, apesar de mentir em seu blog sobre a adesão da greve, não cumpriu nem de longe seu papel de mobilização, se vangloriando de uma assembléia esvaziada e praticamente não divulgada que decidiu pelo futuro de milhares de servidores que estavam alheios à fanfarronice dos sindicalista amarelos do PC do B, do PT e do PSOL...
sábado, 19 de abril de 2008
Mais uma da Escola de Frankfurt
Esse foi retirado de: http://www.socialismo.org.br/portal/filosofia/157-livro/340-a-industria-cultural-o-esclarecimento-como-mistificacao-das-massas
A indústria cultural: o esclarecimento como mistificação das massas
Filosofia e Questões Teóricas
Adorno e Horkheimer
Dom, 13 de abril de 2008 12:15
AdornoNa opinião dos sociólogos, a perda do apoio que a religião objetiva fornecia, a dissolução dos últimos resíduos pré-capitalistas, a diferenciação técnica e social e a extrema especialização levaram a um caos cultural. Ora, essa opinião encontra a cada dia um novo desmentido. Pois a cultura contemporânea confere a tudo um ar de semelhança. O cinema, o rádio e as revistas constituem um sistema. Cada setor é coerente em si mesmo e todos o são em conjunto. Até mesmo as manifestações estéticas de tendências políticas opostas entoam o mesmo louvor do ritmo de aço. Os decorativos prédios administrativos e os centros de exposição industrial mal se distinguem nos países autoritários e nos demais países. Os edifícios monumentais e luminosos que se elevam por toda a parte são os sinais exteriores do engenhoso planejamento das corporações internacionais, para o qual já se precipitava a livre iniciativa dos empresários, cujos monumentos são os sombrios prédios residenciais e comerciais de nossas desoladoras cidades. Os prédios mais antigos em torno dos centros urbanos feitos de concreto já parecem slums [cortiços] e os novos bungalows na periferia da cidade já proclamam, como as frágeis construções das feiras internacionais, o louvor do progresso técnico e convidam a descartá-los como latas de conserva após um breve período de uso. Mas os projetos de urbanização que, em pequenos apartamentos higiênicos, destinam-se a perpetuar o indivíduo como se ele fosse independente, submetem-no ainda mais profundamente a seu adversário, o poder absoluto do capital. Do mesmo modo que os moradores são enviados para os centros, como produtores e consumidores, em busca de trabalho e diversão, assim também as células habitacionais cristalizam-se em complexos densos e bem organizados. A unidade evidente do macrocosmo e do microcosmo demonstra para os homens o modelo de sua cultura: a falsa identidade do universal e do particular. Sob o poder do monopólio, toda cultura de massas é idêntica, e seu esqueleto, a ossatura conceitual fabricada por aquele, começa a se delinear. Os dirigentes não estão mais sequer muito interessados em encobri-lo, seu poder se fortalece quanto mais brutalmente ele se confessa de público. O cinema e o rádio não precisam mais se apresentar como arte. A verdade de que não passam de um negócio, eles a utilizam como uma ideologia destinada a legitimar o lixo que propositalmente produzem. Eles se definem a si mesmos como indústrias, e as cifras publicadas dos rendimentos de seus diretores gerais suprimem toda dúvida quanto à necessidade social de seus produtos.Os interessados inclinam-se a dar uma explicação tecnológica da indústria cultural. O fato de que milhões de pessoas participam dessa indústria imporia métodos de reprodução que, por sua vez, tornam inevitável a disseminação de bens padronizados para a satisfação de necessidades iguais. O contraste técnico entre poucos centros de produção e uma recepção dispersa condicionaria a organização e o planejamento pela direção. Os padrões teriam resultado originariamente das necessidades dos consumidores: eis porque são aceitos sem resistência. De fato, o que explica é o círculo da manipulação e da necessidade retroativa., no qual a unidade do sistema se torna cada vez mais coesa. O que não se diz é que o terreno no qual a técnica conquista seu poder sobre a sociedade é o poder que os economicamente mais fortes exercem sobre a sociedade. A racionalidade técnica hoje é a racionalidade da própria dominação. Ela é o caráter compulsivo da sociedade alienada de si mesma. Os automóveis, as bombas e o cinema mantêm coeso o todo e chega o momento em que seu elemento nivelador mostra sua força na própria injustiça à qual servia. Por enquanto, a técnica da indústria cultural levou apenas à padronização e à produção em série, sacrificando o que fazia a diferença entre a lógica da obra e a do sistema social. Isso, porém, nãoi deve ser atribuído a nenhuma lei evolutiva da técnica enquanto tal, mas à sua função na economia atual. A necessidade que talvez pudesse escapar ao controle central já é recalcada pelo controle da consciência individual. A passagem do telefone ao rádio separou claramente os papéis. Liberal, o telefone permitia que os participantes ainda desempenhassem o papel do sujeito. Democrático, o rádio transforma-os a todos igualmente em ouvintes, para entregá-los autoritariamente aos programas, iguais uns aos outros, das diferentes estações. Não se desenvolveu nenhum dispositivo de réplica e as emissões privadas são submetidas ao controle. Elas limitam-se ao domínio apócrifo dos “amadores”, que ainda por cima são organizados de cima para baixo. No quadro da rádio oficial, porém, todo traço de espontaneidade no público é dirigido e absorvido, numa seleção profissional, por caçadores de talentos, competições diante do microfone e toda espécie de programas patrocinados. Os talentos já pertencem à indústria muito antes de serem apresentados por ela: de outro modo não se integrariam tão fervorosamente. A atitude do público que, pretensamente e de fato, favorece o sitema da indústria cultural é uma parte do sistema, não sua desculpa. Quando um ramo artístico segue a mesma receita usada por outro muito afastado dele quanto aos recursos e ao conteúdo; quando, finalmente, os conflitos dramáticos das novelas radiofônicas tornam-se o exemplo pedagógico para a solução de dificuldades técnicas, que, à maneira do jam [improvisação jazzística], são dominadas do mesmo modo que nos pontos culminantes da vida jazzística; ou quando a “adaptação” deturpadora de um movimento de Beethoven se efetua do mesmo modo que a adaptação de um romance de Tolstoi pelo cinema, o recurso aos desejos espontâneos do público torna-se uma desculpa esfarrapada. Uma explicação que se aproxima mais da realidade é a explicação a partir do peso específico do aparelho técnico e do pessoal, que devem todavia ser compreendidos, em seus menores detalhes, como partes do mecanismo econômico de seleção. Acresce a isso o acordo, ou pelo menos a determinação comum dos poderosos executivos, de nada produzir ou deixar passar que não corresponda a suas tabelas, à idéia que fazem dos consumidores e, sobretudo, que não se assemelha a eles próprios.Se, em nossa época, a tendência social objetiva se encarna nas obscuras intenções subjetivas dos diretores gerais, estas são basicamente as dos setores mais poderosos da indústria: aço, petróleo, eletricidade, química. Comparados a esses, os monopólios culturais são fracos e dependentes. Eles têm que se apressar em dar razão aos verdadeiros donos do poder, para que sua esfera na sociedade de massas ─ esfera essa que produz um tipo específico de mercadoria que ainda tem muito a ver com o liberalismo bonachão e os intelectuais judeus ─ não seja submetida a uma série de expurgos. A dependência em que se encontra a mais poderosa sociedade radiofônica em face da indústria elétrica, ou a do cinema relativamente aos bancos, caracteriza a esfera inteira, cujos setores individuais por sua vez se interpenetram numa confusa trama econômica. Tudo está tão estreitamente justaposto que a concentração do espírito atinge um volume tal que lhe permite passar por cima da linha demarcatória entre as diferentes firmas e setores técnicos. A unidade implacável da indústria atesta a unidade em formação da política. As distinções enfáticas que se fazem entre os filmes das categorias A e B, ou entre as histórias publicadas em revistas de diferentes preços, têm menos a ver com seu conteúdo do que com sua utilidade para a classificação, organização e computação estatística dos consumidores. Para todos algo está previsto; para que ninguém escape, as distinções são acentuadas e difundidas. O fornecimento ao público de uma hierarquia de qualidade serve apenas para uma quantificação mais completa. Cada qual deve se comportar, como que espontaneamente, em conformidade com seu level [nível], previamente caracterizado por certos sinais, e escolher a categoria dos produtos de massa fabricado para seu tipo. Reduzidos a um simples material estatístico, os consumidores são distribuídos nos mapas dos institutos de pesquisa (que não se distinguem mais dos de propaganda) em grupos de rendimentos assinalados por zonas vermelhas, verdes e azuis.O esquematismo do procedimento mostra-se no fato de que os produtos mecanicamente diferenciados acabam por se revelar sempre como a mesma coisa. A diferença entre a série Chrysler e a série General Motors é no fundo uma distinção ilusória, como já sabe toda criança interessada em modelos de automóveis. As vantagens e desvantagens que os conhecedores discutem servem apenas para perpetuar a ilusão da concorrência e da possibilidade de escolha. O mesmo se passa com as produções de Warner Brothers e da Metro Goldwyn Mayer. Até mesmo as diferenças entre os modelos mais caros e mais baratos da mesma firma se reduzem cada vez mais: nos automóveis, elas se reduzem ao número de cilindros, capacidade, novidade dos gadgets [acessórios], nos filmes ao número de estrelas, á exuberância da técnica, do trabalho e do equipamento, e ao emprego de fórmulas psicológicas mais recentes. O critério unitário de valor consiste na dosagem da conspicuous production [produção ostensiva], do investimento ostensivo. Os valores orçamentários da indústria cultural nada têm a ver com os valores objetivos, com o sentido dos produtos. Os próprios meios técnicos tendem cada vez mais a se uniformizar. A televisão visa uma síntese do rádio e do cinema, que é retardada enquanto os interessados não se põem de acordo, mas cujas possibilidades ilimitadas prometem aumentar o empobrecimento dos materiais estéticos a tal ponto que a identidade mal disfarçada dos produtos da indústria cultural pode vir a triunfar abertamente já amanhã ─ numa realização escarninha do sonho wagneriano da obra de arte total. A harmonização da palavra, da imagem e da música logra um êxito ainda mais perfeito do que no Tristão, porque os elementos sensíveis ─ que registram sem protestos, todos eles, a superfície da realidade social ─ são em princípio produzidos pelo mesmo processo técnico e exprimem sua unidade como seu verdadeiro conteúdo. Esse processo de elaboração integra todos os elementos da produção, desde a concepção do romance (que já tinha um olho voltado para o cinema) até o último efeito sonoro. Ele é o triunfo do capital investido. Gravar sua onipotência no coração dos esbulhados que se tornaram candidatos a jobs [empregos] como a onipotência de seu senhor, eis aí o que constitui o sentido de todos os filmes, não importa o plot [enredo] escolhido em cada caso pela direção de produção.
[ADORNO, Theodor W.; HORKHEIMER, Max. Dialética do esclarecimento: fragmentos filosóficos. Tradução de Guido Antonio de Almeida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985, p. 113-117]
Theodor Wiesengrund Adorno (1903-1969) e Max Horkheimer (1895-1973) foram expoentes do marxismo da chamada Escola de Frankfurt, em torno da qual gravitaram Walter Benjamin, Herbert Marcuse e Erich Fromm, entre outros intelectuais alemães antifascistas.
A indústria cultural: o esclarecimento como mistificação das massas
Filosofia e Questões Teóricas
Adorno e Horkheimer
Dom, 13 de abril de 2008 12:15
AdornoNa opinião dos sociólogos, a perda do apoio que a religião objetiva fornecia, a dissolução dos últimos resíduos pré-capitalistas, a diferenciação técnica e social e a extrema especialização levaram a um caos cultural. Ora, essa opinião encontra a cada dia um novo desmentido. Pois a cultura contemporânea confere a tudo um ar de semelhança. O cinema, o rádio e as revistas constituem um sistema. Cada setor é coerente em si mesmo e todos o são em conjunto. Até mesmo as manifestações estéticas de tendências políticas opostas entoam o mesmo louvor do ritmo de aço. Os decorativos prédios administrativos e os centros de exposição industrial mal se distinguem nos países autoritários e nos demais países. Os edifícios monumentais e luminosos que se elevam por toda a parte são os sinais exteriores do engenhoso planejamento das corporações internacionais, para o qual já se precipitava a livre iniciativa dos empresários, cujos monumentos são os sombrios prédios residenciais e comerciais de nossas desoladoras cidades. Os prédios mais antigos em torno dos centros urbanos feitos de concreto já parecem slums [cortiços] e os novos bungalows na periferia da cidade já proclamam, como as frágeis construções das feiras internacionais, o louvor do progresso técnico e convidam a descartá-los como latas de conserva após um breve período de uso. Mas os projetos de urbanização que, em pequenos apartamentos higiênicos, destinam-se a perpetuar o indivíduo como se ele fosse independente, submetem-no ainda mais profundamente a seu adversário, o poder absoluto do capital. Do mesmo modo que os moradores são enviados para os centros, como produtores e consumidores, em busca de trabalho e diversão, assim também as células habitacionais cristalizam-se em complexos densos e bem organizados. A unidade evidente do macrocosmo e do microcosmo demonstra para os homens o modelo de sua cultura: a falsa identidade do universal e do particular. Sob o poder do monopólio, toda cultura de massas é idêntica, e seu esqueleto, a ossatura conceitual fabricada por aquele, começa a se delinear. Os dirigentes não estão mais sequer muito interessados em encobri-lo, seu poder se fortalece quanto mais brutalmente ele se confessa de público. O cinema e o rádio não precisam mais se apresentar como arte. A verdade de que não passam de um negócio, eles a utilizam como uma ideologia destinada a legitimar o lixo que propositalmente produzem. Eles se definem a si mesmos como indústrias, e as cifras publicadas dos rendimentos de seus diretores gerais suprimem toda dúvida quanto à necessidade social de seus produtos.Os interessados inclinam-se a dar uma explicação tecnológica da indústria cultural. O fato de que milhões de pessoas participam dessa indústria imporia métodos de reprodução que, por sua vez, tornam inevitável a disseminação de bens padronizados para a satisfação de necessidades iguais. O contraste técnico entre poucos centros de produção e uma recepção dispersa condicionaria a organização e o planejamento pela direção. Os padrões teriam resultado originariamente das necessidades dos consumidores: eis porque são aceitos sem resistência. De fato, o que explica é o círculo da manipulação e da necessidade retroativa., no qual a unidade do sistema se torna cada vez mais coesa. O que não se diz é que o terreno no qual a técnica conquista seu poder sobre a sociedade é o poder que os economicamente mais fortes exercem sobre a sociedade. A racionalidade técnica hoje é a racionalidade da própria dominação. Ela é o caráter compulsivo da sociedade alienada de si mesma. Os automóveis, as bombas e o cinema mantêm coeso o todo e chega o momento em que seu elemento nivelador mostra sua força na própria injustiça à qual servia. Por enquanto, a técnica da indústria cultural levou apenas à padronização e à produção em série, sacrificando o que fazia a diferença entre a lógica da obra e a do sistema social. Isso, porém, nãoi deve ser atribuído a nenhuma lei evolutiva da técnica enquanto tal, mas à sua função na economia atual. A necessidade que talvez pudesse escapar ao controle central já é recalcada pelo controle da consciência individual. A passagem do telefone ao rádio separou claramente os papéis. Liberal, o telefone permitia que os participantes ainda desempenhassem o papel do sujeito. Democrático, o rádio transforma-os a todos igualmente em ouvintes, para entregá-los autoritariamente aos programas, iguais uns aos outros, das diferentes estações. Não se desenvolveu nenhum dispositivo de réplica e as emissões privadas são submetidas ao controle. Elas limitam-se ao domínio apócrifo dos “amadores”, que ainda por cima são organizados de cima para baixo. No quadro da rádio oficial, porém, todo traço de espontaneidade no público é dirigido e absorvido, numa seleção profissional, por caçadores de talentos, competições diante do microfone e toda espécie de programas patrocinados. Os talentos já pertencem à indústria muito antes de serem apresentados por ela: de outro modo não se integrariam tão fervorosamente. A atitude do público que, pretensamente e de fato, favorece o sitema da indústria cultural é uma parte do sistema, não sua desculpa. Quando um ramo artístico segue a mesma receita usada por outro muito afastado dele quanto aos recursos e ao conteúdo; quando, finalmente, os conflitos dramáticos das novelas radiofônicas tornam-se o exemplo pedagógico para a solução de dificuldades técnicas, que, à maneira do jam [improvisação jazzística], são dominadas do mesmo modo que nos pontos culminantes da vida jazzística; ou quando a “adaptação” deturpadora de um movimento de Beethoven se efetua do mesmo modo que a adaptação de um romance de Tolstoi pelo cinema, o recurso aos desejos espontâneos do público torna-se uma desculpa esfarrapada. Uma explicação que se aproxima mais da realidade é a explicação a partir do peso específico do aparelho técnico e do pessoal, que devem todavia ser compreendidos, em seus menores detalhes, como partes do mecanismo econômico de seleção. Acresce a isso o acordo, ou pelo menos a determinação comum dos poderosos executivos, de nada produzir ou deixar passar que não corresponda a suas tabelas, à idéia que fazem dos consumidores e, sobretudo, que não se assemelha a eles próprios.Se, em nossa época, a tendência social objetiva se encarna nas obscuras intenções subjetivas dos diretores gerais, estas são basicamente as dos setores mais poderosos da indústria: aço, petróleo, eletricidade, química. Comparados a esses, os monopólios culturais são fracos e dependentes. Eles têm que se apressar em dar razão aos verdadeiros donos do poder, para que sua esfera na sociedade de massas ─ esfera essa que produz um tipo específico de mercadoria que ainda tem muito a ver com o liberalismo bonachão e os intelectuais judeus ─ não seja submetida a uma série de expurgos. A dependência em que se encontra a mais poderosa sociedade radiofônica em face da indústria elétrica, ou a do cinema relativamente aos bancos, caracteriza a esfera inteira, cujos setores individuais por sua vez se interpenetram numa confusa trama econômica. Tudo está tão estreitamente justaposto que a concentração do espírito atinge um volume tal que lhe permite passar por cima da linha demarcatória entre as diferentes firmas e setores técnicos. A unidade implacável da indústria atesta a unidade em formação da política. As distinções enfáticas que se fazem entre os filmes das categorias A e B, ou entre as histórias publicadas em revistas de diferentes preços, têm menos a ver com seu conteúdo do que com sua utilidade para a classificação, organização e computação estatística dos consumidores. Para todos algo está previsto; para que ninguém escape, as distinções são acentuadas e difundidas. O fornecimento ao público de uma hierarquia de qualidade serve apenas para uma quantificação mais completa. Cada qual deve se comportar, como que espontaneamente, em conformidade com seu level [nível], previamente caracterizado por certos sinais, e escolher a categoria dos produtos de massa fabricado para seu tipo. Reduzidos a um simples material estatístico, os consumidores são distribuídos nos mapas dos institutos de pesquisa (que não se distinguem mais dos de propaganda) em grupos de rendimentos assinalados por zonas vermelhas, verdes e azuis.O esquematismo do procedimento mostra-se no fato de que os produtos mecanicamente diferenciados acabam por se revelar sempre como a mesma coisa. A diferença entre a série Chrysler e a série General Motors é no fundo uma distinção ilusória, como já sabe toda criança interessada em modelos de automóveis. As vantagens e desvantagens que os conhecedores discutem servem apenas para perpetuar a ilusão da concorrência e da possibilidade de escolha. O mesmo se passa com as produções de Warner Brothers e da Metro Goldwyn Mayer. Até mesmo as diferenças entre os modelos mais caros e mais baratos da mesma firma se reduzem cada vez mais: nos automóveis, elas se reduzem ao número de cilindros, capacidade, novidade dos gadgets [acessórios], nos filmes ao número de estrelas, á exuberância da técnica, do trabalho e do equipamento, e ao emprego de fórmulas psicológicas mais recentes. O critério unitário de valor consiste na dosagem da conspicuous production [produção ostensiva], do investimento ostensivo. Os valores orçamentários da indústria cultural nada têm a ver com os valores objetivos, com o sentido dos produtos. Os próprios meios técnicos tendem cada vez mais a se uniformizar. A televisão visa uma síntese do rádio e do cinema, que é retardada enquanto os interessados não se põem de acordo, mas cujas possibilidades ilimitadas prometem aumentar o empobrecimento dos materiais estéticos a tal ponto que a identidade mal disfarçada dos produtos da indústria cultural pode vir a triunfar abertamente já amanhã ─ numa realização escarninha do sonho wagneriano da obra de arte total. A harmonização da palavra, da imagem e da música logra um êxito ainda mais perfeito do que no Tristão, porque os elementos sensíveis ─ que registram sem protestos, todos eles, a superfície da realidade social ─ são em princípio produzidos pelo mesmo processo técnico e exprimem sua unidade como seu verdadeiro conteúdo. Esse processo de elaboração integra todos os elementos da produção, desde a concepção do romance (que já tinha um olho voltado para o cinema) até o último efeito sonoro. Ele é o triunfo do capital investido. Gravar sua onipotência no coração dos esbulhados que se tornaram candidatos a jobs [empregos] como a onipotência de seu senhor, eis aí o que constitui o sentido de todos os filmes, não importa o plot [enredo] escolhido em cada caso pela direção de produção.
[ADORNO, Theodor W.; HORKHEIMER, Max. Dialética do esclarecimento: fragmentos filosóficos. Tradução de Guido Antonio de Almeida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985, p. 113-117]
Theodor Wiesengrund Adorno (1903-1969) e Max Horkheimer (1895-1973) foram expoentes do marxismo da chamada Escola de Frankfurt, em torno da qual gravitaram Walter Benjamin, Herbert Marcuse e Erich Fromm, entre outros intelectuais alemães antifascistas.
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